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Entrevista – Os cafajestes e o "+amor": o presente e o futuro das relações (Flávio Gikovate)


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Bonzinhos, cafajestes e a importância da amizade para o amor

Todas contra John
Recorte do cartaz de “Todas contra John” (2006) 

“Não encontro alguém que preste” ou “ele era um cafajeste”. As duas frases parecem estar entre as mais ditas por solteiros em busca de um relacionamento amoroso estável. Segundo o mais recente levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE, divulgado no último mês, 42,9% dos brasileiros acima dos 15 anos de idade declaram não estar em nenhum tipo de união conjugal. Apesar de não haver nenhuma estatística sobre a quantidade de cafajestes, pode ser que a maioria deles esteja entre os que conseguiram parceiros. “Os mais mentirosos são os que mais obtêm sucesso, o cafajeste é mais valorizado e prevalece”. A afirmação é dada pelo psiquiatra, psicoterapeuta, conferencista e escritor Flávio Gikovate. Com a experiência de mais de 40 anos de clínica, cerca de nove mil pacientes atendidos e um milhão de exemplares vendidos de seus 30 livros, ele defende o que chama de “+amor” e alerta: “chega de namorar inimigo, o amor que dá certo é o mais parecido com a amizade”.

No amor, muitos se dizem vítimas de cafajestes. Os cafajestes existem mesmo? 
F: Infelizmente, os cafajestes prevalecem no mundo atual. O cafajeste é o que tem mais cara de pau, fala mentiras, promete casamento e, com essa cara de pau, ele mexe com a vaidade feminina. As mulheres se sentem tão estimuladas que acabam cedendo. E os bobões que querem ser sinceros, aqueles que não mentem, se tornam irrelevantes. Mas isso tende a mudar, porque no mundo virtual, os cafajestes não se sobressaem.

As pessoas mais competentes para amar têm menos sucesso do que os cafajestes, mentirosos e egoístas” 

Esses cafajestes homens ou mulheres têm algum problema psicológico para agirem como agem? 
F: Não é necessariamente um problema psicológico e sim um desvio moral. O que acaba incentivando esse comportamento é o fato de valorizarem mais o tipo cafajeste. Valorizam o cafajeste, mas desejam o “bonzinho”. Os mais mentirosos, egoístas, capazes de envolver o outro sem qualquer culpa ou preocupação com o que vão sofrer, são os que abordam de forma mais agressiva (com mais “pegada”) e, certamente, esses obtêm mais sucesso, pela exuberância como mostram seu desejo. Desse ponto de vista, os homens mais maduros, mais preocupados em não magoar e mais competentes para amar, sentem profunda inveja dos cafajestes! Devido à delicadeza e cuidado em não serem invasivos, são vistos como menos sensuais.

Alfie
Recorte do cartaz de “Alfie” (2004) 

Há pessoas que gostam de sofrer na mãos dos cafajestes e que acabam buscando se relacionar com pessoas assim? 
F: Quando alguém reincide num tipo de escolha de parceiro não é porque tem “dedo podre” e sim porque admira o seu oposto. Os opostos só se atraem porque há baixa auto-estima e desejo de preservação da individualidade através de elos frouxos e pouco gratificantes. Ninguém pode entrar num relacionamento como metade que precisa de outra para se completar. O amor que aproxima dois “inteiros” e não o que determina a “fusão” de suas “metades” corresponde ao que eu chamo de “mais amor” (+amor). É um relacionamento baseado em respeito mútuo e confiança recíproca (pessoas moralmente evoluídas são sempre confiáveis). Essa relação é parecida com a amizade. Chega de namorar ou casar com inimigo! Portanto, para evitar os “caras errados”, a pessoa terá de encontrar alguém com quem tenha afinidade e não o seu oposto.

O sexo casual é mais uma espécie de masturbação do que uma relação sexual” 

Envolver-se com o outro com mero objetivo sexual não é exclusivo aos cafajestes. Como o senhor avalia o sexo casual? 
F: O sexo casual cresceu muito em virtude dos recursos anticoncepcionais, da independência social e econômica das mulheres. Houve uma tendência no sentido das mulheres mais velhas a aceitarem manter intimidade (agora plenas) de forma similar ao que os homens sempre fizeram. O que ocorre é que algumas poucas se dão bem nesse tipo de sexo. A grande maioria acha desinteressante porque a sensação de vazio e solidão tende a aumentar com a falta de intimidade em que esses encontros se dão. Não creio que possam ser chamadas de relações sexuais. É algo mais próximo da masturbação. Penso que no futuro o sexo causal será substituído pelo sexo virtual, atividade em expansão e que apresenta inúmeras vantagens sobre o sexo casual.

Amizade colorida
Recorte do cartaz de "Amizade colorida" (2011)

Muitos começam um relacionamento e no primeiro conflito terminam. Quais as consequências desse modo de agir que parece tratar o outro como descartável? 
F: Temos evoluído pouco no aspecto sentimental. As pessoas continuam buscando parceiros com os quais não têm afinidades intelectuais, de caráter, projetos e estilo de vida. A tendência é não dar certo. A grande maioria dos casais ainda é constituída por uma criatura mais generosa e outra mais egoísta. Isso dá um tipo de relação incompleta e que, com os anos, acaba determinando a separação. Os casais se separam pela mesma razão que se uniram: as diferenças de temperamento e de caráter. O que funciona, no entanto, é o encontro de criaturas afins. É uma relação compatível com os tempos modernos, que existe individualidade, respeito, alegria e prazer de estar junto. Deixa de ser uma relação de dependência, em que um responsabiliza o outro pelo seu bem-estar. 

O amor romântico não tem mais chance. O amor como remédio não funciona, é possessivo e ninguém suporta"

Atualmente, as pessoas parecem idealizar e desejar um amor eterno, mas praticar relações de curta duração. Qual a situação do amor hoje no mundo? 
F: O amor romântico – ciumento, opressivo e sufocante – não tem mais chances de dar certo por que é incompatível com o desejo crescente do individualismo. Aos poucos, as pessoas estão reconhecendo o quão imaturo e desgastante é o amor tradicional que conhecemos. No mundo moderno, em que há muita atividade individual e interesses individuais, o amor como remédio não funciona porque ele é possessivo e exclui a liberdade. Isso ninguém tem suportado mais. Este amor vai ter de ser substituído por outra qualidade de relação. Os relacionamentos que vão durar são aqueles que aproximarem duas pessoas inteiras, e não duas metades.

Sexo sem compromisso
Recorte do cartaz de “Sexo sem compromisso” (2011) 

Ao mesmo tempo que muitos dizem que o amor romântico acabou, filmes claramente românticos como Titanic e mais recentemente os livros e filmes da saga Crepúsculo - que representa um amor até mesmo doentio - batem recordes de venda e bilheteria. Como explicar o grande interesse popular e cultural pelo amor romântico? 
F: Há uma enorme falta de compreensão sobre o que de fato representa viver em comunhão. E, definitivamente, não é fazendo concessões e sufocando a individualidade que as relações vão se sustentar. O divórcio é fruto desse desentendimento. A maioria dos divórcios é de iniciativa da mulher. Porque casamentos de má qualidade são mais desgastantes para ela, que é quem culturalmente faz mais concessões no relacionamento.

Não existe a fusão de duas metades, é preciso que o amor seja a aproximação de duas unidades” 

Em algumas entrevistas o senhor chega a dizer que o futuro do amor caminha para ser mais próximo da amizade. Como isso se daria? 
F: O +amor é algo mais parecido com a amizade, por que é aproximação de duas unidades, não a fusão de duas metades. A ideia de fusão acabou. Essa ideia funcionava até pouco tempo por que eram duas carnes com só um cérebro: o do homem. A mulher oficialmente não pensava. Mas com a independência econômica e sexual da mulher, chegou também a intelectual. A passagem de uma relação convencional para uma relação de +amor, que eu defendo, é lenta e progressiva. Tem um momento que dói. Um dos dois vai reclamar primeiro do sufoco. O outro vai ficar ofendido, mas vai aproveitar para afrouxar o vínculo também. Momentaneamente há uma crise. Mas casais que se gostam mesmo, que se respeitam, que têm afinidade, passam por essa crise. E reconstituem a aliança em termos mais individualizados. E entendem que, se um não gosta de ópera, não tem por que ir com o outro e ficar dormindo durante a apresentação. Se um não gosta de futebol, não tem por que ficar ao lado entediado.


Sobre o autor
Ruleandson%20do%20Carmo Ruleandson do Carmo , autor de todas as crônicas deste blog , é jornalista, doutorando em Ciência da Informação (UFMG) e ama falar de amor. Saiba mais
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4 Desabafos - Comente

4 comentários :

  1. Parabens pela entrevista, torper! Voce perguntou pra ele se dentre os 9 mil pacientes esta o Marcelo Antony? Torperbeijo!

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    Respostas
    1. Maíra,
      Obrigado, torper! :) Pois é, esqueci de perguntar se ele estava entre os pacientes hehehehe Torperbeijo!

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  2. Ótima observação e entrevista, também acredito que o amor com base de amizade pode dar mais certo, as compreensões de ambos para esse caso são mais racionais ,para mim a liberdade do casal é preservada e isso desenvolve um amor que é belo e que se expande. Aliás amizades tende a se intensificar com o passar do tempo mais e mais, e por que não no amor pode ter esse +amor
    Abraços!

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    Respostas
    1. Luiz Hick,

      Também acredito em uma relação mais parecida com a amizade para dar certo. Que bom que gostou da entrevista! Abração! :)

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