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Entrevista - Promiscuidade e abstinência: quando o desejo sexual é uma doença? (Tiago Lino)


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Quantidade, qualidade e vontade
Os infiéis
 Recorte do cartaz de "Os infiéis" (2011)

O Brasil é o segundo país do mundo no qual as pessoas mais fazem sexo, fica atrás apenas da Grécia. Em contrapartida, Japão e Estados Unidos são os países líderes em abstinência e menor frequência da prática sexual. Os dados são da Pesquisa de Bem Estar Sexual Mundial, levantamento realizado pelo fabricante de preservativos Durex.

Portugal não aparece no top 10 do ranking dos que mais ou menos fazem sexo no mundo, mas o português, psicólogo clínico e mestre em sexualidade Tiago Lopes Lino estuda há anos em seu país o desejo sexual humano, em geral. Para ele, o sexo é uma das bases da realização humana. Nesta entrevista, sobre promiscuidade, assexuados, aversão sexual  e falta de desejo sexual, o membro da Ordem dos Psicólogos Portugueses alerta "tanto a busca excessiva por gozo sexual sem afeto pelo parceiro quanto a ausência total de desejo por sexo precisam de intervenção psiquiátrica".

Hoje em dia as pessoas de fato fazem mais sexo ou vivemos apenas uma ilusão de um cenário de libertação sexual?
T: Desde o revolucionário maio de 1968 a civilização ocidental viveu uma libertação sexual, contudo este movimento teve dois efeitos: primeiro deu liberdade de escolha sexual e aboliu as crenças e tabus relacionadas com o sexo; segundo emergiu a libertinagem sexual, que levou as pessoas a adotarem vivênciais sexuais sem qualquer critério amoroso, o sexo só por sexo, o sexo passou a ser uma diversão.

A promiscuidade só surgirá se a busca pelo prazer é acompanhada de vazio emocional"

Basicamente o que seria a promiscuidade sexual? 
T: A promiscuidade sexual é um comportamento que conta com a procura e concretização sexual com vários parceiros, de forma sucessiva e diversa, com vista à obtenção do prazer, com inclusão da cópula. Esta procura se assenta no aspecto mais instintivo do ser humano, no qual o que interessa é o sexo no sentido concreto, restrito a uma qualquer intimidade ou a uma qualquer relação afetivo-emocional.  A promiscuidade sexual caracteriza os relacionamentos de caráter exclusivamente sexual, praticados com diversos parceiros, de um modo sucessivo, por um período de tempo pouco significativo em cada relacionamento, não havendo lugar para qualquer tipo de afeto, vínculo ou compromisso.

O indivíduo pode ter um grande apetite sexual sem ser promíscuo?
T: O ser Humano é um ser com afetos, emoções, paixões e múltiplos desejos, entre os quais o desejo sexual. Ao ato sexual - como necessidade básica e fisiológica da pirâmide de Maslow [importante psicólogo estadunidense], que visa garantir a propagação da espécie humana - junta-se a líbido - como energia móvel e aproveitável para a obtenção do prazer nos instintos vitais, incluindo o instinto sexual.

Qual o seu número?
Recorte do cartaz de "Qual o seu número?" (2011)

Ambos, ato sexual e líbido, são a engrenagem do comportamento sexual humano. O desejo sexual, por mais hiperativo que seja, não é, por si só, patológico: é natural. O ser humano, dentro das diferentes fases da vida, revela ter mais ou menos desejo sexual. Se este desejo aumenta devido à insatisfação sexual permanente e interfere e prejudica outras áreas, outrora funcionais da vida do indivíduo, estamos perante hiperssexualidade patológica. 

O fato de um indivíduo ter uma apetite sexual excessivo, tendo em conta que o desejo sexual é parte integrante de um relacionamento amoroso, não faz dele um ser promíscuo. Se existe afeto, vínculo ou compromisso com a(s) outra(s) pessoa(s) podemos dizer que existe apetite sexual sem ser promíscuo. A promiscuidade apenas surgirá, se estiver presente uma busca insaciável pelo prazer sexual acompanhada por um vazio afetivo aquando a concretização sexual. 

O sexo pode se tornar doença de acordo com o comportamento nas fases de decisão e execução"

Então, é possível ter diversas relações sexuais com vários parceiros sem ser promíscuo?
T: Bom, neste caso, tal como referido anteriormente, a existência de afeto, vínculo ou compromiso extingue a hipótese de promiscuidade, contudo não é fácil assumir compromissos amorosos e sexuais com diversas pessoas, pelo menos numa sociedade monogâmica. Numa sociedade poligâmica, podemos considerar a inexistência de promiscuidade, pois um indivíduo com diversas mulheres, sendo sexualmente ativo com todas elas, não deverá ser encarado como um ser promíscuo, pois assumiu um compromisso amoroso com as mesmas. 

Quando a promiscuidade se torna patológica e quais tipos de promiscuidade patológica existem?
T: A promiscuidade sexual é o comportamento típico de um indivíduo com um desejo hipersexual, um indivíduo que tem um desejo exagerado e impulsivo de ter relações sexuais. Os exemplos patológicos são: a perversão sexual  - uso desviado da sexualidade normal - e a ninfomania  - elevado nível de desejo e de fantasias sexuais na mulher. A promiscuidade, juntamente com algumas características da personalidade de determinados indivíduos, pode tornar-se muito facilmente numa libido dominendi, na terminologia usada por Santo Agostinho que a considerou como o desejo de dominar. Refere-se esta classificação ao desejo intencional de dominar sexualmente os outros e humilhá-los sem o seu consentimento. Considera-se uma perturbação psiquiátrica. Caso haja consentimento do parceiro estaremos diante de um quadro de dominação-submissão, que consubstancia uma parafilia e já não uma perturbação psiquiátrica.


All over the guy
Recorte do cartaz de "All over the guy" (2001)

Por outro lado, o desejo sexual hiperativo ou o desejo constante na obtenção de prazer através do sexo, seja ele de forma monossexual ou polissexual, não confere um aspecto patológico, salvo se este contribuir para o sofrimento do próprio indivíduo ou de outros. Porém, podemos referir que o desejo sexual hiperativo, tal como a promiscuidade sexual, são classificados como perturbações do impulso sexual.

O sexo pode mesmo viciar um indivíduo?
T: A promiscuidade está estreitamente ligada à realização satisfatória dos impulsos sexuais, chegando a transformar-se num vício. Sendo a vontade sexual regida por quatro fases: a concepção, a deliberação, a decisão e a execução, é mais fácil identificar a promiscuidade como um comportamento patológico nas duas últimas fases, decisão e execução, pois caso funcionem compulsivamente a favor de um impulso sexual exacerbado e viciante, causam sofrimento ao indivíduo. O comportamento sexual pode-se tornar-se compulsivo, à semelhança dos outros vícios, tornando o indivíduo dependente dessas compulsões para obter prazer. Por sua vez, este comportamento sexual compulsivo, indicador de um comportamento ou pensamento sexual excessivo, pode provocar sofrimento emocional ou perturbação social ou ocupacional ao indivíduo que o comporta.

A promiscuidade não é exclusiva aos homossexuais masculinos, mas a sociedade a encoraja neles"

Quais os riscos e os principais problemas que um promíscuo patológico vivencia?
T: Os riscos inerentes a um indivíduo patologicamente promíscuo poderá coincidir com os riscos existente em comportamentos sexualmente desviantes, o risco de contrair doenças sexualmente transmissíveis. Quanto aos principais problemas, estes podem remeter para quadros de doença mental, tal como a depressão. Por outro lado, em muitas doenças mentais, tal como nas psicoses, os comportamentos sexualmente promíscuos poderão, num episódio de surto, estar bem presentes.

Então, há pessoas que realmente não conseguem se manter fixas a um parceiro por estarem doentes, serem promíscuas patologicamente? Há algum tipo de tratamento?
T: Segundo Brecher [famoso americano pesquisador da sexualidade humana], a escolha de um parceiro sexual torna-se significativa unicamente porque a sociedade obriga a tal. A condicionante social da escolha de um parceiro não é de todo fácil. Esta escolha exige procura, experimentação e a verificação de compatibilidade sexual entre os indivíduos. A pressão social em escolher propiciará situações promiscuas, em busca do par ideal que permita uma relação duradoura e monogâmica. Contudo a falta de controle do impulso sexual conduz os indivíduos ao quadro de promiscuidade patológica, pois estamos perante uma dependência física ou psicológica. Logo o tratamento, semelhante ao tratamento no consumo de drogas, consiste na intervenção psicofarmacológica e acompanhamento psicológico.


O virgem de 40 anos
Recorte do cartaz de "O virgem de 40 anos" (2005)

Há modelos de relação como o poliamor ou relacionamento aberto que compreendem a manutenção de relações afetivas e sexuais com diversos parceiros, mas sem acreditar que isso seja promiscuidade. O que o senhor pensa a respeito?
T: A poligamia é a relação onde os indivíduos mantêm mais de um vínculo sexual e afetivo, isto é, refere-se a um tipo de relacionamento amoroso com mais de um parceiro, por um período significativo de tempo ou até por toda a vida. Tendo o afeto e o compromisso não é promiscuidade.

Alguns dizem que os homens e principalmente o homossexual masculino é mais promíscuo. O senhor concorda?
T: Muitos estudiosos da sexualidade dizem que a promiscuidade sexual tem mais que ver com a masculinidade do que propriamente com a homossexualidade. Na promiscuidade não há objetivo que não seja o gozo. Para alguns autores, existe uma influência social na escolha do parceiro, para outros, o homossexual não é socialmente encorajado a ter relações estáveis, pelo contrário.

Alguns pesquisadores vão dizer que o comportamento sexual no mundo real tem que ser estabelecido por um compromisso com desejos de sexo oposto, contudo, os recursos disponíveis e a agressiva competição masculina, no mundo de fantasia, permitem aos homens poder fazer exatamente o que lhes apetecer, podendo inclusive ter desejo pelo mesmo sexo, caso pretendam. A competição é a grande força motriz por detrás dos instintos sexuais primários dos homens e a testosterona o principal hormônio responsável pelo desejo sexual masculino. Ora, falamos de homens, de desejo sexual por indivíduos do mesmo sexo, de níveis de testosterona, de procura obsessiva do parceiro ideal, de competitividade e de agressividade, condimentos que facilmente proporcionam uma conduta promíscua homossexual masculina.

Se o sexo se torna indiferente ao indivíduo e isso traz sofrimento, também é uma patologia, como a promiscuidade"

Por outro lado, há pessoas que não fazem sexo e não tem o desejo de fazer. Isso também seria uma perturbação psiquiátrica?
T: Neste caso falamos de duas situações e, convém, distingui las. Por um lado temos os assexuados, indivíduos que escolhem não ter qualquer orientação sexual, logo o desejo ou a prática sexual são inexistentes. Por outro temos a perturbação do desejo sexual, esta sim de origem psiquiátrica, pois traz sofrimento e inadaptação ao indivíduo.

No primeiro caso, não podemos falar de perturbação psiquiátrica, pois ser assexual é uma escolha sexual que não traz sofrimento ao indivíduo.

No segundo caso, a perturbação do desejo sexual, é composta por dois subtipos, a aversão sexual e o desejo sexual hipoativo. A aversão sexual é uma espécie de evitamento fóbico ao sofrimento causado pela premente necessidade de evitamento às oportunidades e aos encontros sexuais com parceiros, devido a sensações de desagrado, de medo, de "nojo", de repulsa e de perigo iminente. O desejo sexual hipoativo é a diminuição ou ausência total de fantasias e de desejo de fazer sexo, que por sua vez torna-se numa atividade indiferente ao indivíduo. Tanto a aversão sexual como o desejo sexual hipoativo, deverão ter uma intervenção psiquiátrica.


Sobre o autor
Ruleandson%20do%20Carmo Ruleandson do Carmo , autor de todas as crônicas deste blog , é jornalista, doutorando em Ciência da Informação (UFMG) e ama falar de amor. Saiba mais
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