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Com incidência

Da minha timidez

"Eu pensei no que fiz de errado, mas, pelo que eu me lembro, foi você que não me quis"
(Britney Spears)

Tenho andado com um guarda-chuva o tempo todo, mesmo que não pareça que vá chover. É grande o medo de me molhar. E embaixo desse guarda-chuva eu ando escondendo meus desejos e o meu coração. Sou descontraído, mas, ultimamente, se é amor eu travo. Me tornei alguém retraído, contido e tímido no amor. Não no sentimento, ainda sinto de modo intenso e em excesso, mas tenho me retraído nas atitudes. Retraído em um sentido geral do amor, nas paqueras, nas investidas, eu tenho preferido deixar passar do que me magoar. Não sei se por autoestima, se por falta de estima ou se por excesso de estima, mas tenho preferido perder uma chance do que ganhar outra ferida. Sabe aquele papo de que gato escalcado tem medo de água fria? Não é verdade! Gato escaldado no nível de escaldo que eu vivenciei tem medo de gota d'água, tem medo até de torneira. Não tenho nem 30 anos de idade ainda, mas sinto que não tenho mais idade ou paciência para aqueles joguinhos todos de paquera. Eu tenho trocado a paixão pela dúvida e não encontro o guichê no qual desfaço a troca. Meu coração tem batido na frequência de interrogações. Se alguém diz que me quer ou parece me querer eu só consigo me perguntar "será que quer mesmo? Será que não estou confundindo tudo? Será que não é só coincidência?". Eu já me confundi tantas vezes, como vou saber que não é mais uma confusão? Já entendi como amor tanta amizade que queria só a minha companhia, já confundi com desejo tanta brincadeira de quem só queria brincar. O que eu tenho que tantas vezes já fui o brinquedo preferido de tanta gente? Sou um idiota que não sabe diferenciar intenções ou só convivo com gente que semeia paixões? Porque tem gente que semeia paixões e se ela brota no seu peito a culpa é sua, é você quem confundiu tudo. Já recebi olhares, pedidos, toques, ordens e no fim eram infelizes coincidências. E fui me fechando, me trancando, achando normal. Serei eu o problema? Serão todos os outros os problemas? Mas, peraí, eu não me apaixonei por todos, eu me apaixonei por alguns que eram apaixonantes, intencionalmente apaixonantes, ainda que depois desconversassem. Deixei me jogarem no lixo e só me notarem quando o cheiro do lixo vencido me fizesse notável, eu me consolava com meu coração reciclável. Só que fui dançando a música da maioria e aprendendo a me contentar com menos. Quando o amor se tornou algo que exige da gente sorte? Passei a ter medo de tentar, de ser alguém pé-no-saco, alguém indesejado e passei a ficar quieto, eu deixei de ser eu. No entanto, se a gente começa a se acostumar a ser ignorado e acha estranho quando alguém te trata bem ou te dá atenção, tem algo errado acontecendo. Ao invés de me fechar eu poderia "curtir" a vida e "pegar" geral sem compromisso. Adoro sexo sem compromisso para quando eu não quero me comprometer. A gente não pode se dar o que a gente não quer com quem a gente quer. E o meu compromisso comigo? E os meus desejos? Será que as pessoas são só um rosto no Facebook: você chega, curte e desaparece? Eu até poderia mudar, mas não há nada a fazer quando você não é O motivo suficiente para alguém te querer. Não sou carente, mas meu coração é fértil, seletivo, mas fértil. Se eu te permitir entrar na minha vida, não semeie paixão se eu tiver que colher desilusão. Me tornei alguém medíocre, esperanças não movem mais meu coração, ele agora precisa de certezas. Com incidência foi tudo coincidência e o que restou foi um coração apaixonado batendo tímido no peito de alguém que foi deixado de lado.

"Eu posso ser um grande idiota, mas eu tenho o coração mais valente que você já viu"
(Alanis Morissette)

O leitor só queria..

Helen Lopes (PR)

Helen Lopes
"Eu só queria... descubrir a cura do amor patólogico, e saber me colocar em primeiro lugar.

Amor para mim... é viver e deixar viver. Acredito que quando se ama juntamos todas as coisas mais maravilhosas e perfeitas do mundo e consideramos similares a pessoa amada.

Na vida eu aprendi... A dar o coração em pedacinhos, um de cada vez. Assim se alguém te machucar, vai machucar apenas os pedacinhos que deu. Quem se entrega por completo tem mais chances de se sofrer.

Minha frase preferida é... 'Conheça todas as teorias, domine todas as técnicas, mas ao tocar uma alma humana, seja apenas outra alma humana' (Carl Gustav Jung)".

Helen Lopes - estudante, nascida em Apucarana no PR e hoje residente em Curitiba também no PR - conheceu o blog por meio de um link na comunidade "Amor patológico" no Orkut.

Para participar, clique aqui ou envie e-mail pararuleandson@gmail.com e desabafe! Os leitores que já enviaram os textos terão seus desabafos publicados nos próximos meses, desabafe você também!

Sou só morando só

Sem amor, sem mim, sem fim

A solidão (2007)Recorte do cartaz de A solidão (2007)

Tenho andado só. Tenho me sentido só. Não aquele só que você cansou de ouvir - aquele só da sua ausência, aquele só que me encontro desde que eu não te tenho (se eu tiver tido), não aquele só que é só a sua saudade, a sua falta, que, na verdade, nem me falta mais, já se tornou parte de mim. É estranho, mas a falta de algumas pessoas se torna parte de nós, algo que às vezes ignoramos, a vida sufoca, mas está lá. Como os passos que a gente dá sem pensar no movimento de cada perna. Quando você anda você não pensa "vou mexer essa perna, agora vou mexer a outra", você apenas mexe, movimenta e anda, mas insconcientemente o pensamento está lá. A falta da pessoa que amamos é assim, com o tempo a gente acostuma, passa até despercebido, mas é essa falta que se torna o pensamento que faz a gente seguir, como o pensamento em segundo plano que faz a gente dar cada passo. Você não está aqui, mas você sempre está aqui, então não é desse só que eu venho te falar hoje. Estou só, morando só, em uma nova casa, em uma nova cidade, em um novo trabalho. Muitas vezes eu desejei ter alguma chance para me mudar e conseguir te esquecer, em uma tola ilusão de que fosse o lugar que me fizesse amar, de que longe eu deixaria de querer você perto. Agora moro só e tenho tido cada vez menos tempo para tudo. Tenho tido menos tempo até para pensar em você. É que antes eu sentia a falta de alguém que eu amava, agora eu sinto a falta de todas as pessoas que eu amo no mundo e que não estão aqui comigo. A gente não encontra todos que amamos todos os dias, mas a possibilidade de encontrar estando na mesma cidade nos conforta, a impossibilidade estando longe atormenta. Dores crônicas tem sufocado o tempo para escrever minhas crônicas em meio a minha vida anacrônica querendo você, que a cada novo hoje se torna tão mais longe de cada ontem. Mas tenho descoberto muita coisa. Descobri que há frios que nenhum agasalho tira. Percebi que a saudade de quem se ama dói quando quem se ama está distante e dilacera quando quem se ama está ausente. É diferente distante de ausente, a distância é a falta física inevitável e a ausência é quando quem você ama escolhe não estar. Tenho tentado aceitar que as pessoas fazem escolhas e têm o direito de fazê-las, mas que às vezes essas escolhas não incluem você. Notei como nunca que você só pode contar com quem você pode contar. Morando só você percebe que, por mais útil que seja a Internet, nada faz mais companhia do que uma TV velha que de longe chia, chia com o som daquele programa que você não quer ver, mas tem o único barulho capaz de abafar a voz da saudade de todos aqueles que você quer ver, mas não surgem, mesmo que se troque várias vezes de canal. Pagando as contas você percebe que você parcela as dívidas para doer menos no bolso, mas a vida não parcela dores e medos, ela manda todos de uma vez, mesmo que você não dê conta de arcar com eles. A cada dia aprendo que com a saudade todo lugar se torna imenso e impossível de ser preenchido, mesmo este quarto no qual vivo, tão apertado que parece o menor do mundo, mas às vezes tão solto quando nele não encontro o apertar do seu abraço. Constato que a distância ensina melhor do que qualquer dicionário a diferença entre casa e lar. Sinto vontade de ouvir até os gritos da minha mãe querendo que eu fosse quem eu nunca vou ser. Sinto vontade de gritar, mas não tem ninguém aqui para me ouvir (você pode me ouvir? você quer me ouvir?). Acredito cada vez mais que covarde é quem não chora, é quem não sente, pois é preciso ser forte para se permitir sentir e crescer. Penso no quão longe estou de casa e me dói saber que eu iria ainda mais longe se algum caminho me trouxesse você. Mais distantes de todos estaríamos mais próximos de nós? Até agora a vida nova que eu desejei me trouxe apenas a vontade de voltar a ter a minha vida velha, mas eu sei que isso pode mudar a qualquer momento. Ser romântico, sensível, intenso, melancólico e geminiano é ter uma bomba relógio no peito prestes a explodir. Sou só morando só, só de sem você, só de sem ninguém, só como posso e como só preciso ser. Mas essa solidão tem sido a companhia para me fazer crescer e aceitar o que é e o que nunca deveria ter sido. Ser só e aceitar (me enganar) tem sido o melhor que poderia me acontecer. Sou só, vivo só, porque aqui ou aí - quem saberia dizer - nunca fomos nós.

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