Recorte de Casos e casamentos (2004)
Segundo resultados de pesquisa realizada pelo Instituto DataFolha, a fidelidade é mais valorizada pelos brasileiros do que uma vida sexual satisfatória. Traduzindo: os brasileiros preferem não serem felizes sexualmente do que serem traídos pelo parceiro. Os dados da pesquisa, divulgados em 2007, indicam que 53% acham a traição o fator mais prejudicial do casamento e apenas 1% acha que uma vida sexual insatisfatória é um problema. "A infidelidade é percebida como sintoma de uma insuficiência da relação amorosa. Para muitos, sem a fidelidade, a relação não sobreviveria, pois acreditam, ou precisam acreditar, que são únicos para o parceiro", afirma a antropóloga Mirian Goldenberg, que há vinte anos pesquisa a fidelidade no Brasil. Nesta entrevista, Mirian, que acaba de lançar o livro "Por que homens e mulheres traem?", apresenta um raio-x da traição no Brasil com base nas pesquisas que realizou e revela: "para muitas pesquisadas, a fidelidade é muito mais valiosa do que a presença de um homem em suas vidas".
Quando e como a senhora se interessou por pesquisar a traição?
M: Há mais de vinte anos venho pesquisando a (in)fidelidade masculina e feminina no Brasil. Para o meu primeiro estudo sobre o tema, entrevistei mulheres de diferentes gerações que foram, ou ainda são, as Outras. Foi durante o meu doutoramento em antropologia e se transformou no meu primeiro livro sobre a questão.
"A infidelidade masculina é tão recorrente no Brasil que movimenta um mercado próprio: há sites que arrumam álibis para os maridos infiéis"
Na minha pesquisa, com 1279 indivíduos das camadas médias da cidade do Rio de Janeiro, quando perguntei: "Quais os principais problemas que você vive ou viveu em seus relacionamentos amorosos?", homens e mulheres responderam, em primeiro lugar: ciúmes e infidelidade. No entanto, a principal queixa masculina foi, basicamente, falta de compreensão. Já as mulheres responderam: egoísmo, incompatibilidade de gênios, falta de segurança, falta de confiança, falta de sinceridade, falta de diálogo, falta de liberdade, falta de paciência, falta de atenção, falta de companheirismo, falta de maturidade, falta de amor, falta de carinho, falta de tempo, falta de tesão, falta de respeito, falta de individualidade, falta de dinheiro, falta de interesse, falta de reciprocidade, falta de sensibilidade, falta de romance, falta de intensidade, falta de responsabilidade, falta de pontualidade, falta de cumplicidade, falta de igualdade, falta de organização, falta de amizade, falta de alegria, falta de paixão, falta de comunicação, falta de conversa etc. Algumas ainda afirmaram que falta tudo. Enquanto os homens foram extremamente objetivos e econômicos em suas respostas, algumas mulheres chegaram a anexar e grampear folhas ao questionário para acrescentar mais e mais faltas.
De acordo com os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE, 71 % dos pedidos de separação feitos por mulheres são motivados por traição masculina. A infidelidade masculina é tão recorrente no Brasil que movimenta um mercado próprio. Na Internet, um site chamado Álibi presta um serviço para arrumar, justamente, álibis. Eles enviam convites para eventos, fazem reservas em hotéis e prestam assistência telefônica. Assim, se uma esposa quiser entrar em contato com seu marido (infiel), uma recepcionista atenderá de maneira a garantir que ela acredite que ele está ocupado trabalhando ou em algum evento importantíssimo (e não com sua amante, como efetivamente está). Também na Internet existem inúmeros chats destinados apenas a pessoas casadas interessadas em encontros com outras pessoas casadas.
Decidi aprofundar o meu estudo ao perceber que as diferenças de gênero são marcantes, mas a traição é um problema grave para homens e mulheres.
Para algumas pessoas, parece ser mais importante não ser traído do que ser de fato amado. Há alguma explicação para isso?
M: A crença na fidelidade do parceiro é fundamental. As mulheres que pesquisei enfatizam que recebem provas constantes de que são as únicas. A infidelidade é percebida como sintoma de uma patologia ou insuficiência da relação amorosa. Não é uma questão moral ou obrigatória. É uma impossibilidade sentimental. A fidelidade do amante é um valor tão fundamental que, sem ela, a relação não sobreviveria. Elas acreditam, ou precisam acreditar, que são únicas, especialmente no domínio sexual.
"Ficar sozinha está acima de ser a esposa traída. Portanto, a figura do homem perde completamente o valor quando ele é infiel"
Na hierarquia de valores das minhas pesquisadas, a melhor posição é a da esposa (com um marido fiel); seguida da Outra (com um amante fiel), da mulher que está só e, por fim, da mulher casada com um marido que tem a Outra. Esta última, segundo elas, é a posição mais humilhante, submissa, passiva, dependente, insatisfatória. A pior posição para elas é a da esposa que, elas acreditam, não tem uma vida sexual com o marido nem outros prazeres, apenas obrigações com os filhos e com a casa. Elas preferem ser as Outras do que serem sós, mas preferem ser sós do que mal acompanhadas (com um parceiro infiel). Como mostrei no livro Coroas, no Brasil, ter um marido fiel é uma verdadeira riqueza, especialmente em um mercado afetivo e sexual em que os homens disponíveis para o casamento são escassos. Criei o conceito de "capital marital" ao perceber que as mulheres casadas sentem-se poderosas e satisfeitas por terem um marido e, mais ainda, por acreditarem que ele é fiel e completamente dependente delas. Pode-se pensar que, no caso de não se possuir o "capital marital", o amante fiel é considerado um outro tipo de capital, um pouco menos valorizado mas ainda desejado. É interessante destacar que, na hierarquia das pesquisadas, ficar sozinha está acima de ser a esposa traída. Portanto, a figura do homem não é incondicionalmente soberana. Apesar do marido ou do amante serem verdadeiros capitais para as pesquisadas, eles perdem completamente o valor quando são infiéis. O que reforça a idéia de que a fidelidade é o principal valor para as pesquisadas, um capital muito mais valioso do que a presença de um homem em suas vidas.
O que motiva uma traição?
M: No material da minha pesquisa, chama muita atenção o fato de as mulheres reclamarem da falta de intimidade com seus parceiros, enquanto os homens se queixam da falta de compreensão de suas mulheres. Esta me pareceu a diferença de gênero mais marcante entre os meus pesquisados. Do lado feminino, a ânsia por intimidade. Do masculino, a busca por compreensão. Talvez aqui, neste descompasso entre os desejos femininos e masculinos, esteja a chave para se compreender os atuais conflitos nos arranjos conjugais e, também, a infidelidade. Pode-se perceber, nos discursos de homens e mulheres, um verdadeiro abismo entre os gêneros quanto ao valor e ao significado da intimidade e da compreensão nos relacionamentos amorosos.
"Um dos entrevistados me disse: 'O cafajeste é o único cara que consegue transar com dez mulheres e fazer com que cada uma das dez se sinta a única'!"
"Sabe qual é o maior paradoxo? O cafajeste é o cara mais fiel do mundo. Ele é o único que faz com que as mulheres se sintam únicas. Cada mulher com quem ele se relaciona se sente especial na vida dele. E é isso o que uma mulher quer ser: especial, única, ou melhor, ela quer acreditar que é a única. O cafajeste é o único cara que consegue transar com dez mulheres e fazer com que cada uma das dez se sinta a única na vida dele. Não é isso o que as mulheres querem? Serem únicas? Então o cafajeste é o cara mais fiel do mundo. É o único que faz com que dez mulheres acreditem que ele é fiel e que elas todas são únicas. Moral da história: é melhor ser cafajeste do que um cara fiel, porque elas acreditam mais no cafajeste do que em nós. Não é um paradoxo maluco?"
Dizem que para o homem a traição incomoda se for sexual e para a mulher a traição incomoda se for sentimental. Mito ou realidade?
M: Apesar de muitos comportamentos masculinos e femininos não estarem mais tão distantes, inclusive no que diz respeito à traição - como mostram os dados da minha pesquisa em que 60% dos homens e 47% das mulheres afirmam já terem sido infiéis – os discursos femininos e masculinos são extremamente diferentes.
Pode-se notar, ao analisar estes dados, que os homens justificam suas traições por meio de uma suposta essência masculina. Já as mulheres infiéis dizem que seus parceiros, com suas faltas e infidelidades, são os verdadeiros responsáveis por suas relações extraconjugais. Ou seja, no discurso dos pesquisados, a culpa da traição é sempre do homem: seja por sua natureza incontrolável, seja por seus inúmeros defeitos (e faltas) no que diz respeito ao relacionamento. Se é inquestionável que, nas últimas décadas, houve uma revolução nas relações conjugais, pode-se verificar que, na questão da infidelidade, ainda parece existir um "privilégio" masculino, isto é, ele é o único que se percebe e é percebido como sujeito da traição. Enquanto a mulher, mesmo quando trai, continua se percebendo como uma vítima, que no máximo reage à dominação masculina."Questionados sobre os problemas na relação, os homens foram objetivos, enquanto algumas mulheres chegaram a anexar e grampear folhas ao questionário para acrescentar mais e mais faltas"













