
Recorte do cartaz de Brilho Eterno de uma mente sem lembranças (2004)
"Posso dizer que fui movida pelo amor", explica a formanda em psicologia Solange Cambraia Lopes. Aos 47 anos ela iniciou o curso de psicologia, no qual se forma, com o objetivo de conhecer melhor o comportamento e o psiquismo humano, para "contribuir de forma mais incisiva na diminuição do sofrimento psíquico das pessoas e, especialmente, de uma pessoa que amo muito", conta Lopes. Em entrevista ao blog, ela fala sobre seus estudos acerca de questões como amor e bem-estar e avisa "achar que não precisamos de ninguém para ser feliz é pura ilusão".
O tão falado amor-próprio. Como desenvolvê-lo e não confundí-lo com egoísmo?
S: Amar a si mesmo é um pressuposto fundamental para se ser feliz, embora o amor próprio, muitas vezes, seja confundido com ser individualista e egoísta. O amor-próprio é essencial para que nós nos lancemos no mundo com coragem e confiança. Não amar a si mesmo é sentir-se inferior aos demais e, dessa forma, dificilmente o indivíduo conseguirá amar verdadeiramente o outro. Essa consciência do amor-próprio se desenvolve a partir de uma profunda reflexão acerca de nossas qualidades e defeitos. Já o egoísmo (ego + ismo) é o hábito ou atitude do indivíduo de colocar seus interesses sempre em primeiro lugar, em detrimento das demais pessoas com as quais se relaciona.
O amor romântico prega o amor incondicional e com isso há quem pense que não aceitar tudo que o outro faz não seria amor. A senhora concorda?
S: Considerando que toda relação amorosa é dialética, essa seria uma atitude passiva na qual a pessoa não se posiciona. Pode-se dizer que ela se anula. Dessa forma, reprime seus anseios e desejos em função de ser amada. É um mecanismo de defesa para indivíduos inseguros e com baixa auto-estima.
"O modo que amamos são repetições inconscientes de experiências anteriores"
Como as questões relacionadas ao amor podem impactar o lado psicológico do indivíduo?
S: O amor é a mola mestra da saúde psíquica do indivíduo. A relação de amor se forma a partir do momento em que o bebê nasce e recebe os primeiros cuidados maternos. Esses cuidados não são apenas o alimento e a higiene, mas o afeto, o toque, o olhar, o sentir-se amado. Essa experiência da conexão mãe-filho, de forma saudável, é fundamental para a saúde psíquica do sujeito.
E por que um grande número de pessoas atribuem a felicidade ao fato de ter ou não um parceiro?
S: Desde o início, somos programados para amar, portanto, não queremos viver só. Precisamos do outro, é o outro quem diz quem somos. Como disse, anteriormente, precisamos nos sentir amados. Ainda que a experiência de amar possa causar dor, pois quanto maior o amor maior a dor, mesmo assim estamos sempre em busca de uma relação de amor. É uma repetição compulsiva na natureza humana. Um desejo de repetir o que fizemos antes, uma tentativa de restaurar um estado de satisfação anterior do ser. Assim, aqueles a quem amamos e o modo que amamos são repetições inconscientes de experiências anteriores.
S: Quando o indivíduo diz que "não precisa de ninguém para ser feliz" pode estar usando isso como mecanismo de defesa, ele teme sofrer, pois sabe que toda relação envolve amor e dor. Por outro lado, tem pessoas narcisistas, ou seja, se acham auto-suficientes e pensam que não necessitam dessa permuta de afetos. Pura ilusão.
Há pessoas que entram em depressão por amor, com um amor não correspondido, ou com o término de uma relação, por exemplo. Há algum modo de se perceber que a pessoa precisa de ajuda psicológica para lidar com as relações?
S: A perda é um pressuposto básico da existência, porém lidar com ela é um fato que exige muito do sujeito. Viver é um processo constante de perder e ganhar, ganhar e perder. Quando perdemos algo ou alguém, faz-se necessário elaborar o luto. Obviamente com dor, sofrimento e no tempo de cada um. Caso o indivíduo adoeça, faz-se necessário um maior cuidado, pois ele pode se tornar melancólico tendo sua vida pobre de energia afetiva, pois uma parte dela continua presa no outro que morreu ou que não o quer mais.
"Alguns pedem conselhos ao outro para se algo der errado ter a quem culpar"
S: Falar sobre um problema ou conflito é sempre bom. Ter alguém para escutar é melhor ainda. Só o fato de você estar ouvindo o que você próprio está falando já é algo positivo, pois alivia as tensões emocionais que o conflito causa no sujeito. Quanto aos riscos do aconselhamento, depende de quem os recebe e de quem os dá. Tem pessoas que não querem se posicionar ou fazer escolhas, então pedem conselhos para o outro, pois se não der certo ele terá a quem culpar.
Como saber se o problema é no relacionamento ou no modo de amar do indivíduo?
S: O problema central, em geral, é a relação amorosa. Seja com os pais, com irmãos, amigos ou com o parceiro. Muitas vezes, seguimos padrões de relacionamentos ditados pela cultura. Porém, há que se considerar a história de vida do sujeito que é singular, bem como a sua subjetividade para poder opinar. Não se pode generalizar.














