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30 abril 2010

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Entrevista - "Para Francisco": a superação da perda de um amor pelas palavras de uma mãe (Cris Guerra)

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Para uma vida complexa, palavras belas

Filme The back-up plan
Recorte do cartaz de The back-up plan (2010)

A estadunidense Anna Jarvis perdeu a mãe no início do século XX, durante uma guerra civil. Com a morte repentina da mãe, Anne entrou em depressão. Para ajudá-la a superar o sofrimento, amigas realizaram uma festa para celebrar a memória da mãe de Anne. O sucesso da festa e o desejo de que a comemoração fosse estendida a todas as mães deu origem ao dia das mães, em 1914. No Brasil, a data é comemorada por diversas famílias, todo segundo domingo do mês, mas para alguns o dia das mães tem um significado especial.

A publicitária belorizontina Cristiana Guerra, mais conhecida como Cris Guerra, perdeu a mãe e perdeu o pai. Não contou com uma festa em homenagem à memória deles para superar a dor, mas usou as palavras que a acompanham desde os 13 de idade (hoje ela tem 39) para entender suas dores. Órfã, Cris engravidou em 2006. Grávida, aos sete meses de gestação, Cris recebeu a notícia da morte súbita do pai de seu filho, dois meses antes de o bebê nascer. Viúva ela novamente usou as palavras para se reerguer, por meio do blog "Para Francisco", dedicado ao filho: "escrever sempre foi o meu canal mais forte de expressão". Nessa entrevista, Cris Guerra fala sobre perdas, amores, dores, amor de mãe e, principalmente, sobre a superação: "É incrível como somos dotados de uma capacidade impressionante de olhar para frente", ensina.


Você é órfã de pai e mãe e o pai de seu filho morreu pouco antes de o bebê nascer. Como você reagiu, em um primeiro momento, ao saber que seu filho nasceria órfão de pai?
C: Foi horrível, inacreditável. Durante muito tempo tive um conflito com isso, inclusive depois que o Francisco nasceu. Mas fui aprendendo, com o tempo, a aceitar isso. Até porque não dá pra ficar se debatendo. É preciso seguir em frente. Mas sei que vou conviver com essa frustração para o resto da vida. O que faço é não focar nela.


Como buscou a superação da perda de um amor e do pai de seu filho?
C: Não foi uma coisa consciente, planejada. No começo, o mais importante era sobreviver. E eu tinha uma motivação muito forte para isso: a vinda do meu filho. Meus amigos me aguentaram minha falação repetitiva por muito tempo. É preciso ter essa paciência com as pessoas enlutadas – mas é necessário entender que isso tem um tempo, não pode durar anos. Depois, foi natural escrever, pois esse sempre foi o meu canal mais forte de expressão e, nessa hora, foi imprescindível. Ao longo do tempo, fui fazendo esse movimento catártico e quase frenético: escrevi, escrevi, escrevi.
Isso foi muito importante para eu superar a tristeza: gritar a minha dor para o mundo"

Comecei a postar no "Para Francisco" como um registro, quando entendi que era para o Francisco que eu deveria falar, pois antes, eu falava para o Gui. Eu ia escrevendo e guardando virtualmente, aproveitando para dividir com quem quisesse ler. Mas achava que a minha história tinha um aspecto particular demais para que alguém se interessasse por ela. Com o tempo, quando cada vez mais pessoas começaram a ler e se emocionar, imaginei que era o inusitado da história que as tocava. Quantas pessoas a gente conhece que ficaram viúvas enquanto estavam grávidas? Mas com o tempo fui percebendo que isso talvez fosse apenas o motivo inicial do interesse pelo blog. Na verdade, eu estava tocando em questões muito universais: o amor, as perdas, a maternidade, a viuvez, as memórias, passado e futuro. Questões que fazem parte da vida de todo mundo. À medida que escrevia, enxergava melhor as coisas. Eu queria falar para o Francisco, mas também queria falar comigo mesma. Queria falar sobre o pai dele, sobre mim, sobre o que eu tinha vivido e sobre o que eu sentia. Eu já tinha perdido mãe e pai e sabia que, por uma questão de sobrevivência, as lembranças frescas do Gui iriam me fugir. Achei injusto com o Francisco e comigo que as lembranças se perdessem com o tempo, e o blog se tornou um compromisso diário, constante. Foi ficando cada vez mais importante falar com ele e a publicação do blog era uma forma de ter a disciplina e não parar de escrever. Fui escrevendo o que eu sentia, dia a dia. E as coisas não paravam de vir. E a força vinha do próprio ato de escrever. Escrever me deixou mais forte. E ganhava leitores com quem eu compartilhava a minha dor. Isso foi muito importante: gritar a minha dor para o mundo.


Quando a escrita entrou em sua vida?
C: Comecei a escrever aos 13 anos, tentando entender a vida. Mas eu só escrevia para mim mesma. Como a vida foi ficando mais e mais complexa, não parei mais. De tanto escrever, virei redatora publicitária e foi nesse tipo de escrita que investi profissionalmente, por quase 20 anos. Em 1992 eu me formei em Comunicação Social pela UFMG e desde então trabalhei como redatora em diversas agências de Belo Horizonte. Em 2002 eu me casei pela primeira vez e me separei dois anos e meio depois, tendo sofrido dois abortos naturais durante esse casamento, o que foi bem sofrido. Depois me apaixonei por um colega de trabalho, o Guilherme, com quem vivi um amor muito intenso e de quem engravidei em 2006. Tudo certo, nós dois vivendo nosso melhor momento de vida e, em janeiro de 2007, quando eu completava sete meses de gravidez, meu namorado teve uma morte súbita. Escrever tornou-se ainda mais necessário.

Na tentativa de entender e explicar dois sentimentos opostos e simultâneos, o da perda e o de ser mãe, comecei a postar no "Para Francisco", que acabou sendo editado em livro em novembro de 2008. Meu segundo blog, "Hoje vou assim", surgiu como uma forma de me divertir, comecei a fazer um registro despretensioso de minhas produções diárias para o trabalho. Também escrevo um terceiro blog, "Amor e ponto", literário, mas não mais com um assunto central como o "Para Francisco".


Filme The backup planRecorte do cartaz de The back-up plan (2010)


O "Para Francisco" é um blog de mãe, sobre o pai, para o filho. Qual o papel do blog no seu relacionamento com Francisco?
C: Ele é a forma que encontrei para dar o pai do Francisco de presente para ele. Um dia, esse presente vai ser entregue. Não sei quando nem como será. Mas sei que com esse registro ele vai conhecer um pouco o pai que teve, saber do amor que o pai já nutria por ele, do quanto ele, antes de vir, fez o pai feliz e realizado, e vai ter acesso a um pouco da nossa história. Escrever no tempo certo foi importante demais. Se eu tivesse deixado para depois ou não o tivesse feito, talvez eu perdesse o frescor das lembranças porque naturalmente vamos olhando para frente. O amor que se foi vai se tornando uma foto amarelada com o tempo. Pura poesia, mas passado. É incrível como somos dotados de uma capacidade impressionante de olhar para frente.


No "Para Francisco" você explica que fala sobre o Guilherme, sobre o mundo e sobre você mesma e inclui um "só por garantia" entre parênteses após citar a si própria. Tem algum medo de que o Francisco a perca?
C: Este é o meu maior medo! Não gosto nem de pensar. Ignoro a possibilidade (risos).


Quando perdemos de alguma forma alguém que amamos, esse amor por algum tempo se torna a nossa referência do que é felicidade. Acredita em termos o "amor da nossa vida", ou pensa que encontrará alguém para amar tanto ou mais do que o Guilherme?
C: Acho que podemos ter um ou mais amores na vida. O tempo nos mostra e eu já tive provas disso. Estou amando pela segunda vez depois da morte do Gui. Acho que com cada pessoa a gente vive um amor diferente. Mas temos muito amor dentro de nós. Acredito nisso. E a gente não deixa de amar quem se foi. A gente leva esse amor dentro da gente e, de certa forma, ama outras pessoas, com o mesmo amor. Um amor mais maduro, melhor, mais apurado.
Eu acho que o amor de mãe é o único amor maior do que o que sentimos por nós mesmos"


Nos seus outros blogs você fala sobre "amor e ponto" e mostra as roupas com as quais vai trabalhar no "hoje eu vou assim". O que escrever em cada um de seus blogs representa para você?
C: Representa a descoberta de minhas outras facetas e possibilidades, além da publicidade. É maravilhoso.


E o que você deseja "para Francisco"?
C: Desejo que ele consiga ser ele mesmo – o que é uma coisa difícil, apesar de parecer óbvia. Que ele seja fiel a si mesmo em suas escolhas. Que possa ter a liberdade para trilhar o caminho que desejar. Que tenha consciência do mundo, que tenha paciência, amor, solidariedade. Se ele for um cara bacana, já estou satisfeita, pois isso vai ajudá-lo a ter pessoas bacanas e que o amem ao seu redor. E se puder ter uma profissão em que possa fazer o que gosta e ser feliz, melhor ainda.


Estamos próximos dos dias das mães. O que é o amor de mãe para você?
C: É o único amor maior do que o que sentimos por nós mesmos.

6 dos desabafos - DESABAFE!:

  1. Nossa que entrevista emocionante Ru! A Cris Guerra é um exemplo de vida...gostei muito! Parabéns!!! Bjos, Ka

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  2. Karina Castro,
    Ela é bela lição de vida mesmo! :P Fico feliz que tenha gostado! Beijos!

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  3. Nossa, realmente emocionante! Exemplo de vida e de força, porque se erguer novamente não é fácil e ela mostra que o faz um pouco mais a cada dia. Parabéns! *-*

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  4. Bárbara Gusmão,
    Uma lição para nossas vidas mesmo! Parabéns, para a Cris!

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  5. Acompanho o blog da Cris há tempos e ela é uma pessoa admirável.
    Mas quem não passa por uma grande perda deve achar realmente emocionante esta história.
    Também perdi pai, perdi a avó que me criou e perdi minha filha. Quando existem tantas perdas em nossa vida, a gente aprende a lidar com a ausência dessas pessoas tão amadas de uma maneira diferente, entende a morte mais facilmente.
    E para que decide continuar a vida e não se entregar a dor, um vazio fica mas nada impede de termos dias felizes.

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  6. kamastria,
    Quem passa também costuma achar admirável quem supera a dor, quem se esforço por dias melhores! O exemplo fica a todos! :D

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"deixa, deixa, deixa eu dizer o que penso dessa vida, preciso demais desabafar"
(Ronaldo Monteiro/ Ivan Lins)

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