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31 janeiro 2010

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Entrevista - Machismo e amor: um homem em defesa das mulheres (César Machado)

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Ele por elas

Filme As muitas mulheres da minha vidaRecorte do cartaz de "As muitas mulheres da minha vida" (2007)

Ele namora. Mesmo sendo compromissado trai a namorada beijando outra. Depois ainda transa com essa amante. Mas é ela, a amante, que tem seu caráter questionado por milhares de twitters que assistem ao Big Brother Brasil, enquanto ele, o traidor, sai quase que ileso da história. A reação de parte das pessoas à história acima - o romance entre Michel e Tessália, participantes do BBB 10 - é similar a muitas outras e ilustra bem a sociedade machista na qual, infelizmente, vivemos. "Os homens podem, sem vergonhas ou culpas, ser os porta-vozes do falocentrismo e da manutenção da ainda dominante cultura machista, enquanto a maioria das mulheres se cala", explica o responsável pelo blog "Ela nua e crua" César Machado. Através da Internet, ele publica suas reflexões sobre o amor e a condição da mulher. Nesta entrevista, ele expressa o desejo de contribuir para o fim do machismo e, sobretudo de entender o amor. Quanto ao diploma acadêmico para discutir o sentimento, Machado é categórico "a própria natureza te gradua".


Por que acredita que as mulheres precisam de um porta-voz de sua individualidade e sexualidade?
C: Dentro da cultura e dos preceitos machistas, os homens sempre encontram apoios e reforços, entre seus pares machos, para as suas fantasias, conquistas e aventuras romântico-sexuais, fazendo questão de compartilhá-las e de levantá-las como troféus. Por mais machistas e aberrantes que sejam seus casos, nenhum amigo ouvinte se indispõe ou se declara a favor da reputação da mulher "vítima". Os homens podem, sem vergonhas ou culpas, ser os porta-vozes do falocentrismo e da manutenção da ainda dominante cultura machista.


No caso feminino é muito diferente: elas se calam. A grande maioria se sente forçada a ser aliada dos homens nos julgamentos dos comportamentos das parceiras de gênero, mesmo que as julgadoras estejam cometendo "delitos românticos" idênticos ou piores do que aquela que se encontra no banco dos réus, com a hipócrita finalidade de preservação da própria imagem. Com raras exceções, não confiam umas nas outras e todas as mulheres sabem disso.

Criei um blog para a mulher poder finalmente perceber que ela definitivamente não é um E.T. pervertido"
Por isso, ao longo de meu trabalho, através de pesquisas e diversos depoimentos, percebi a solidão em que elas vivem, não tendo em quem confiar, convivendo sozinhas com frustrações e pensamentos íntimos. Os maridos, em geral, são os últimos da lista de pessoas confiáveis para tais confissões. Por isso, a idéia do blog, para elas lerem e perceberem, mesmo anonimamente, que suas insatisfações, seus desejos e anseios de liberdade de suas sexualidades são legítimos e que não são coisas de outro mundo, sendo perfeitamente comuns a todas as mulheres.

Resumindo, decidi criar um espaço no qual, através de troca de experiências, elas pudessem concluir que não são ET’s pervertidos. O intuito foi atenuar as malditas culpas geradas pelas culturas machista e romântica.


Há certo senso comum de que as mulheres se preocupam mais com o amor. Seu trabalho é dedicado aos relacionamentos heterossexuais, os homens também não deveriam ser focados por ele?
C: Mesmo com apenas cerca de quatro meses de criação do blog, o conteúdo já é muito denso, em termos de artigos e comentários. Na verdade, lendo, na íntegra, os artigos e os meus comentários, pode-se perceber que mais tenho filosofado e criticado o romantismo do que escrito especificamente sobre as mulheres. É impossível falar sobre ele sem abordar a postura masculina. Ainda estou no campo da filosofia das interações nos namoros e casamentos e, inevitavelmente, continuarei falando sobre os homens até o final. Tenho falado mais sobre conflitos relacionais do que sobre a sexualidade feminina e o sexo em si, apesar de que, mais à frente, falaremos bastante sobre ele. Têm sido leituras que servem a ambos.


Quando escrevi a proposta do blog mencionei que escreveria sobre as relações heterossexuais por questão de foco mesmo, além de não me sentir seguro para escrever sobre as homossexuais. Mas comentei que tudo me levava a crer que estas estão mergulhadas no mesmo emaranhado de sofrimento. Isso tem sido comprovado em todas as oportunidades que tenho para conversar com gays e lésbicas, como por exemplo, na semana passada, quando entrevistei um casal de namorados gays. Muito do conteúdo que se encontra no blog, até o momento, também pode ser direcionado aos homossexuais.

Não é necessário diploma para falar de amor. Para o amor, a vida é a maior e mais eficiente escola"

Não ser psicólogo traz alguma dificuldade à proposta de discutir e levar à reflexão do amor?
C: Não precisamos de formação acadêmica para discutir o amor. Precisamos entender que não há como avançar nesse debate se não conseguirmos nos desvencilhar, o máximo possível, da cultura. O que considero ser amor não é cultural, não havendo espaço para a moralidade. Ele é ético, universal, natureza, essência e liberdade. Logo, se você consegue libertar sua alma para desejar compreender os caminhos que podem levá-lo ao entendimento desse sentimento por demais abstrato, subjetivo, puro e anarquista - que podemos chamar de amor incondicional -basta lançar mão da filosofia para se expressar. Assim sendo, a própria natureza te gradua. Sinto-me graduado, nesse sentido, pois me percebo, apesar de um aprendiz da matéria amor, um curioso cada vez mais amoral. Tenho estado atento à natureza que me diz que nasci para ser livre e é ela é quem tem me dado condições para poder falar algo sobre o amor. Um diploma em nada me ajudaria, nesse sentido. Não desejo lançar um foguete, que é invenção humana; quero descobrir e compartilhar minhas descobertas acerca do que é liberdade, que já nos pertence, dádiva da natureza. Para o assunto que me propus a discutir, a vida é a maior e mais eficiente escola.



O que é o amor?
C: Sem dúvida alguma, a pergunta mais difícil. Não tenho uma definição precisa do que seja e de como é sentir o amor. No entanto, sinceramente, não pretendo tê-la. Defini-la será, mais uma vez, engessá-lo e não me permitir ir além do que eu pensava ser. Por hora, acho suficiente ter em mente que é um sentimento que quer muito conhecer o parceiro profundamente, independentemente das questões morais, que não aprisiona, não sufoca, que respeita as escolhas distintas das nossas, que não permite que nossas inseguranças se interponham no caminho da felicidade do outro.


O amor verdadeiro e incondicional é consequência das verdades irrestritas e da liberdade de poder viver o que realmente somos. Se um desses dois não existir na relação, pode-se ter qualquer outro sentimento, mas jamais o amor puro que toda a sociedade ocidental busca.

O amor é a busca central e a palavra mais repetida no romantismo. Porém, paradoxal e hipocritamente, a própria cultura romântica, com suas mentiras e sentimentos de posse, colocou carcereiros, através de modelos padronizados de relacionamentos heterossexuais e a dois, para um preso de alta periculosidade e nocivo aos preceitos cristãos e às instituições, fazendo de tudo para que ele permaneça desconhecido e incomunicável: o amor livre e verdadeiro.

Logo, não reconheço o amor romântico como amor, pois está longe de ser um sentimento nobre. Ele prega a doação, tolerância, entrega, abdicação, posse, abstinência, sofrimento, falta de liberdade e, por fim, a castração da sexualidade e do indivíduo. Crimes, violências, humilhações e doenças passionais... É ridículo demais aceitá-los como coisas normais.

Definir o que não é amor é bem mais fácil do que dissertar sobre ele.

Filme As muitas mulheres da minha vida
Recorte do cartaz de "As muitas mulheres da minha vida" (2007)


No blog, o senhor conta que foi casado por várias vezes. O que o levou a buscar entender o amor: a felicidade ou a infelicidade amorosa?
C: Meus casamentos foram todos ótimos, pois quando o deixaram de ser, eu rompi com eles. Por isso, não tenho trauma algum de casamento. Felicidade ou infelicidade não foram os fatores que me levaram a buscar entender o que é o amor, mas sim a minha insatisfação e ansiedade pela irrestrita liberdade de ir e vir e para me relacionar e amar quem eu quisesse. É interessante ressaltar que, em minha última separação, a minha preocupação não era ficar livre para descobrir o que é amar. Eu queria apenas ser livre. O sentimento de algo que queiramos chamar de amor e a busca do entendimento do que ele é foram consequências da liberdade adquirida. Por essa razão, afirmo que sem liberdade não se ama.



Quem sofre mais por amor o homem ou a mulher?
C: Sem dúvida, a mulher. A sociedade e a família a preparam para viver o amor romântico, ser esposa, mãe e fiel, garantindo-lhe a felicidade através desses papéis e postura – apesar de isso estar mudando, lentamente. A frustração vem a galope, quando ela acorda e percebe que não conheceu a felicidade, que existem dois pesos e duas medidas, que o jogo é desleal e sujo, além da descoberta de que não é isso que sua alma quer. Após perceber a armadilha, vê-se acorrentada a um modelo de vida e comportamento, sendo muito difícil dele se livrar. Porém, apesar dessa dificuldade, grande parte das separações costumam ser iniciativas femininas.


Raramente, nós ouviremos de um homem que ele está frustrado com o seu casamento, pois, diferentemente da mulher, o seu ingresso nele é sem fantasias. Ele já vai preparado para ter uma infidelidade aceita pela sociedade, sem culpa e ciente de que terá que "rebolar" um pouco para poder continuar se relacionando com outras mulheres. O homem não sofre tanto durante o casamento, pois foi preparado para a parcial perda de liberdade. Seu sofrimento aparece quando a mulher pede a separação, quando então, normalmente, vira bicho, diante do absurdo do macho ser rejeitado pela fêmea, além de quase sempre achar que, durante um bom tempo ele foi" corno", já que ele só pediria a separação se já houvesse outra mulher à sua espera, para constituírem outro lar. Porém, raramente a mulher se separa e vai imediatamente morar com outro homem.

A internet é perfeita para discutir o amor, pois permite um alcance maior das idéias sobre o tema"
Os pensamentos femininos e masculinos possuem liberdades muito diferentes. Mesmo que ambos possuindo as mesmas oportunidades para atender às suas libidos, os homens deixam de fazer por opções próprias, por não terem tempo etc. As mulheres deixam de fazer o que intimamente desejariam por acharem que não devem, por "não ser justo", para não se sentirem levianas. Esta é apenas mais uma vertente do sofrimento feminino.


Por que resolveu usar a Internet para refletir e discutir o amor?
C: Para um maior alcance dessas idéias que, na verdade, nem são minhas, são da própria natureza, do universo. Tenho sido apenas uma ferramenta de propagação. O blog foi, também, uma forma que encontrei para ouvir outras mulheres, de outros estados e com outras realidades, além das diversas das quais eu já havia obtido depoimentos, a fim de enriquecer ainda mais o meu livro. A Internet é perfeita para isso.



Sobre o projeto de seu livro "Paridade Sexual". Como será a obra e há alguma previsão para lançá-lo?
C: O livro está, atualmente, com cerca de 170 páginas. Assim que me separei, parei de escrevê-lo, pois sabia que vivendo livre eu teria bem mais condições de enriquecê-lo com minhas experiências e conclusões. Logo depois criei o blog, que foi um passo maravilhoso em termos de trocas. No momento tenho me dedicado a ele. Quanto ao lançamento, não tenho pressa, pois minha maior urgência está em aprender a viver bem. No entanto, acredito que até o final deste ano ele estará indo para a editora.

4 dos desabafos - DESABAFE!:

  1. oi gostaria de saber pq um homenm tao machista, é tarado por sexo, e gosta de carícias ousadas tipo no perineo e no anus.isso n incute seus valores de macho onde tb tem desejos ardentes e adora outras coisas?

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  2. Anônimo,
    As duas áreas que você citam provocam prazer no homem, não vejo relação entre isso e ser machista...

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  3. Gosto muito de dar umas espiadinhas por aqui me sinto bem guri...beijinhos

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  4. Sabe,isso me parece mais pregação de hedonismo sob alcunha de feminismo do que qualquer outra coisa...ainda mais quando alega que amor romântico é castração.Bom meu amigo,nós mulheres detestamos levar chifres e sermos vista como "disponíveis"(raiz da nossa mercantilização e assédio sexuais) para qualquer um,principalmente homens compromissados(coisa que vc mesmo disse mas se contradiz).O problema rezide na educação machista,liberar todos para fazer o que quiserem só tem gerado aumento da nossa exploração sexual e violências(até estupro virpou piada,fora as justificativas que tenho lido para apedofilia e o incesto).Recomendo que vc faça mais pesquisas na área da luta feminista,tenho a impressão que seu blog só tem sido visitado por mulheres insatisfeitas mas sem visão crítica das reais causas da nossa exploração.

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"deixa, deixa, deixa eu dizer o que penso dessa vida, preciso demais desabafar"
(Ronaldo Monteiro/ Ivan Lins)

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