
Recorte do cartaz de Ninguém segura essa garota (2007)
Que as emoções afetam a nossa saúde e o nosso equilíbrio não é nenhuma novidade. Doenças psicológicas como a depressão aumentam sua incidência a cada dia. Segundo a Organização Mundial de Saúde cerca de 121 milhões de pessoas no mundo sofrem de depressão, mal associado à morte de aproximadamente 850.000 pessoas por ano. Dentre as causas para a depressão estão diversos fatores, entre eles, os relacionamentos afetivos. Sobre esse aspecto, pesquisa realizada na Itália concluiu que o amor pode causar mais depressão nas pessoas do que felicidade.
Agora o que talvez seja novidade é que antes que os problemas emocionais se agravem ao ponto de uma depressão, a ajuda pode estar do outro lado da tela. Desde os meados da década de 1990, psicólogos brasileiros realizam orientações psicológicas pela Internet. A psicóloga Salete Monteiro Amador, especializada em saúde coletiva, psicoterapia breve, psicoterapia de casal e família, é uma das fundadoras do site Ser Melhor, que desde 2007 oferece orientações psicológicas gratuitamente. Nessa entrevista, Salete analisa o auxílio psicológico disponibilizado pela Internet e constata algo parecido com o resultado da pesquisa italiana: "a maioria das questões apresentadas dizem respeito às dificuldades nos relacionamentos amorosos".
- Como e quando começou, no Brasil, o auxílio psicológico pela internet?
S: No Brasil a orientação psicológica via Internet começou em meados da década de 90 com o aumento das interações entre as pessoas mediadas por computador. Atualmente, o Conselho Federal de Psicologia (CFP) legitima o auxílio ou orientação psicológica online, mas não a psicoterapia online, que não é autorizada pela resolução do Conselho n. 012/2005 e que reconhece somente " o atendimento mediado pelo computador", que se caracteriza por interações breves e pontuais, diferente da psicoterapia presencial. Já nos Estados Unidos, por exemplo, a psicoterapia via Internet é regulamentada e praticada há muito tempo.
S: Acredito que estar frente a frente com um psicólogo é diferente do contato via Internet. Sim, muda o discurso. Pela escrita na Internet as pessoas são mais breves e objetivas e têm menos dificuldade em abordar temas que são para elas vergonhosos como, por exemplo, impotência sexual ou traição. Porém, a longo prazo na psicoterapia, que é presencial, as pessoas não só falam dos temas dos quais se envergonham, como também conseguem ir além, aprofundando sentimentos, expectativas, fantasias e frustrações. Assim abordam suas questões de forma mais completa e transformadora, já que vai se estabelecendo um vínculo de confiança com o psicoterapeuta, algo mais difícil de acontecer no contato via Internet.
"Não acredito que as pessoas saiam dos conselhos por e-mail e vão para o consultório"
- A senhora acredita que as pessoas saem dos conselhos por e-mail e vão para os consultórios?
S: Não. Acho que o pedido por uma orientação é diferente do pedido por uma psicoterapia. A primeira é, na maioria das vezes, breve e pontual: uma dúvida, um pedido de encaminhamento, etc. Geralmente após a resposta a pessoa se satisfaz.
Já a psicoterapia exige que a pessoa tenha disponibilidade interna para um tratamento profundo, disponibilidade esta geralmente nascida de um sofrimento que não se satisfaz ou resolve com uma resposta. É uma busca por auto-conhecimento, que necessita de disponibilidade para se abrir e se transformar, para confiar no outro, para olhar o seu próprio ser. Também exige tempo, já que a presença é no mínimo semanal, e, no caso de atendimento particular, o pagamento dos honorários do profissional.
- Apesar da importância dessa mediação pela web, encontrar a solução para seus problemas emocionais não é tão fácil quanto pesquisar algo no Google, por exemplo. Como conscientizar o indivíduo sobre até onde a psicologia pode ajudar e o que depende somente dele?
S: Realmente a busca por informações através do Google é rápida e fácil, que bom seria se pudéssemos fazer o mesmo quanto a nossas questões existenciais.
A Psicologia se propõe a auxiliar a pessoa em seu processo de auto-conhecimento. Quando a pessoa já tentou resolver uma questão sozinha, mas percebeu que não dá, há algo dificultando que ela não sabe identificar ou solucionar sozinha, é hora de procurar por auxílio de um profissional. É o tipo de ajuda que não pode ser acessada através do Google: é pessoal e única.
É de responsabilidade de cada um de nós o cultivo de nosso bem-estar de saúde, o respeito a si mesmo e às nossas emoções. Também somos nós que quando percebemos que algo está fora de controle ou é de difícil solução temos que tomar a decisão de pedir ajuda em busca de respostas mais íntimas e profundas.
No site Ser Melhor convivem, juntamente com a orientação psicológica, artigos que procuram estimular no leitor o senso crítico, rever o sentido de certas coisas, questionar, informar e etc. Este é um tipo de caminho que imagino ajudar nesta conscientização, porém não existem caminhos milagrosos. No final das contas a conscientização tem que nascer dentro de cada pessoa, o que podemos fazer é apenas tentar plantar uma pequena semente.
Cena de Terapia do amor (2006): ajuda para as emoções
S: No início da orientação que realizo os e-mails eram predominantemente de mulheres jovens, com idade entre 16 e 22 anos, a maioria estudante. Atualmente o perfil se ampliou e, além desse público, as pessoas adultas de ambos os sexos também têm buscado bastante por orientação psicológica via Internet.
Uma curiosidade é que muitas pessoas de outros países, a maioria delas brasileiros, entram em contato para realizar a orientação psicológica e não só pessoas aqui do Brasil. Emirados Árabes, Japão, Portugal, Estados Unidos são alguns exemplos de países de onde recebi consultas. O grande problema destas pessoas que entram em contato geralmente é a solidão em um país desconhecido, a língua, a impossibilidade de encontrar ajuda profissional e etc.
- Há procura motivada por problemas nos relacionamentos afetivos (namoro, amizade, família)?
S: Sim, a maioria das questões apresentadas dizem respeito às dificuldades nos relacionamentos amorosos: brigas, amores não correspondidos, dificuldade de dialogar, desentendimentos, traição, ciúme, dentre outros. Há também esclarecimentos sobre a gravidade de determinados sintomas como: depressão, esquizofrenia, transtorno bipolar, abuso e uso de drogas e álcool, perda de entes queridos, abuso sexual, dificuldades sexuais, etc.
- Por que as pessoas ainda parecem ter essa dificuldade de falar sobre os problemas com os reais envolvidos neles?
S: Falar o que está acontecendo e o que estamos sentindo não é tão fácil quanto parece, pois precisamos olhar para nós mesmos, darmos nomes aos sentimentos e lidarmos com emoções que nem sempre gostamos de olhar: medo, egoísmo, inveja, ciúme, insegurança, etc.
Nem sempre as questões apresentadas são resolvidas colocando as questões aos envolvidos. Muitas vezes temos dificuldade em lidar com os nossos próprios sentimentos de forma madura e quando vamos falar com o outro misturamos experiências passadas, acusações, mágoas. Em geral não falamos sobre a situação, mas acusamos o outro pela nossa dor ou frustração.
O diálogo maduro depende de, no mínimo, duas pessoas responsáveis pelos seus atos, que não acusam-se mutuamente, mas sim trocam pontos de vista sobre um determinado assunto ou desentendimento para esclarecer um situação de desentendimento. Não há perdedores ou vencedores, há troca e ambos saem mais fortalecidos.
"O apoio de quem amamos é importante, mas há questões que só se resolvem com ajuda profissional"
S: Quando amamos e nos importamos com alguém temos que estar abertos para oferecer o ombro, dar uma palavra de apoio, um conselho. Porém é importante lembrar que quando damos conselhos estamos geralmente tomando como referência nós mesmos. Sendo assim nem sempre um conselho que damos pode realmente ajudar a alguém. Se a sua história de vida não bate com a de quem estamos tentando ajudar muito do que falamos pode "entra por um ouvido e sair por outro". Uma grande parte das vezes vale mais a pena escutar o que a pessoa tem a dizer, como uma forma dela desabafar, do que dar conselhos. Porém isto é uma das coisas mais difíceis que existe.
O apoio de quem amamos é sempre importante. Porém há questões que não se resolvem só com apoio e necessitam de ajuda profissional e tratamento – depressões, esquizofrenia, dificuldades sexuais, medos e dificuldades que impeçam a autonomia da pessoa, uso ou abuso de drogas e álcool, dentre outros problemas. Quando isso ocorre é importante orientarmos e incentivarmos quem amamos a buscar ajuda profissional.
- Ainda na Internet, hoje acompanhamos a popularização dos blogs. Expressar os sentimentos nesses serviços pode ajudar a pessoa a lidar melhor com suas emoções?
S: Sim, acho que expressar nossas emoções, pensamentos é sempre muito válido e faz bem para nós mesmos. Além disso, aproxima-nos de pessoas com gostos em comum, amplia nossa consciência, equilibra as emoções, é prazeroso, etc. A expressão pode ser diversa: por meio da música, artes, literatura e também pela Internet e seus novos recursos como os blogs.
- A senhora acredita que a rede mundial de computadores possa ser um espaço para troca de experiências e cooperação para melhorar a saúde emocional do indivíduo?
S: Sim, o espaço virtual é uma nova realidade que pode ser explorada a favor de novas e saudáveis relações como: encontros culturais, novos conhecimentos, partilha de experiências e interesses, amizades, conhecer pessoas em países distantes e etc.
Porém a Internet é apenas um meio, um facilitador em certos casos e talvez um complicador em outros. Nunca devemos substituir uma experiência "real" pela "virtual", afinal não é tão saudável deitar na grama em um dia de sol e bater um bom papo com os amigos que você conheceu pelo Orkut?
Agradecimentos: www.sermelhor.com e à jornalista mineira Ana Flávia Gussen.












