Recorte do cartaz de Falando de sexo (2004)No último dia 8, mulheres por todo o mundo comemoraram o Dia Internacional da Mulher. Entretanto, se a data celebra um marco da libertação feminina e da luta pelo fim do sexismo, parece que o sexo feminino ainda precisa de mais realização, justamente, no sexo. Pesquisa recente realizada pela Universidade Estadual do Piauí revelou que 73% das moradoras de Esperantina, ao norte do Piauí, nunca alcançaram o orgasmo. O levantamento aponta que a realidade sexual da mulher pode não ter mudado nas últimas décadas: estudo feito por psicanalistas do Rio de Janeiro, nos anos 1970, revelou que 62% das mulheres não gozavam. Hoje, segundo dados da Sociedade Brasileira de Estudos sobre Sexualidade Humana, cerca de 56% das brasileiras sofrem de alguma disfunção sexual.
Esta triste realidade feminina despertou a preocupação do sociólogo e psicólogo Dr. José Cardoso Nascimento, também formado em psicanálise e hipnoanálise. Há anos atendendo pacientes em seu consultório, para tratar neuroses - disfunções do não amadurecimento das fases oral, anal e genital de forma natural, passando pela resolução do complexo de Édipo - ele é autor do livro "A importância do gozo sexual da mulher – e o grande sofrimento de não alcançá-lo". Nesta entrevista ele fala sobre os problemas de uma vida sem o gozo sexual e pondera "a falta de orgasmo está ligada, principalmente, a um fator desesperador: uma péssima autoestima".
- Neste mês de Março foi celebrado o dia Internacional da Mulher. O senhor acredita que a mulher já se libertou sexual e emocionalmente?
J: É bom que se comemore o dia Internacional da Mulher. Porém, a mulher tem usado a liberdade muito mais para competir com os homens do que para amar. Emocionalmente estão confusas e insatisfeitas.
- Pesquisas indicam que poucas mulheres alcançam o orgasmo durante o sexo. A que o senhor atribui essa realidade?
J: A falta orgástica está ligada, na maioria das vezes, excetuando-se traumas e violências ocorridas na infância, a três fatores básicos: uma relação edípica não elaborada (triângulo pai-mãe-filha); desconhecer e tornar os genitais femininos intocáveis até a puberdade, tornando-os, praticamente, atrofiados: e o mais desesperador dos três : uma péssima autoestima.
"A masturbação tem o principal papel na compreensão, desde a infância, de que o corpo responde a um estímulo"
- Quais são os principais distúrbios sexuais enfrentados pela mulher?
J: O distúrbio sexual que mais incomoda a mulher é a anorgasmia (ausência do orgasmo). É como se lhe faltasse um pedaço do corpo.
- A masturbação teria qual papel para ajudar as mulheres a alcançar o orgasmo?
J: A masturbação tem o principal papel na compreensão, desde a infância, de que o corpo responde a um estímulo.
- No livro, o senhor chama a atenção para o grande sofrimento feminino por não alcançar o orgasmo. Como esse sofrimento se reflete na vida da mulher?
J: Um desastre. A mãe passa para os filhos sua eterna insatisfação, com tudo e com todos.
Recorte do cartaz de 9 canções (2004)- Mas é comum "descontar" no trabalho, nos amigos e familiares a falta de orgasmo?
J: Homens com problemas sexuais (ejaculação precoce, impotência ou que apenas ejaculam, mas não gozam), procuram compensar tais faltas tornando-se poderosos, donos de grandes posses, consumistas vorazes, como forma compensatória de uma aparência saudável. Eficiência zero, com eles mesmos. Segundo a metáfora cristã, Jesus disse: é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus. Quando gozamos estamos no sétimo céu. Estamos nas nuvens. Lembra desses ditados populares?
A mulher anorgástica, na maioria das vezes, torna-se agressiva e vingativa, pois acha que é o parceiro que não dá conta de lhe fazer gozar. Isso é piada! Ou ela tem a capacidade de ter orgasmos ou não. Uma grande parte acomoda-se e acaba somatizando, isto é, desenvolvendo doenças de fundo emocional que repercutem no físico. Podem tornarem-se excelentes profissionais, desviando toda libido para produções aceitáveis que lhes colocam em pedestais
compensatórios. A pessoa anorgástica acaba demonstrando sua infelicidade de alguma maneira e as pessoas próximas usam de brincadeiras jocosas, dizendo que ela precisa de amor.
- Qual seria o papel de quem convive com uma mulher nessa realidade?
J: O papel de quem convive com uma mulher anorgástica é nenhum. Exemplo: duas pessoas estão famintas, mas só existe comida suficiente para matar a fome de uma. Ela come toda a comida e mata a sua fome, mas jamais matará a fome da outra pessoa que não comeu.
"Uma boa autoestima é fator importante para sua permissão de ter orgasmo com o parceiro"
- O sexo é praticado, no mínimo, a dois. Uma mulher que não alcança o orgasmo deve procurar auxílio psicológico individual ou terapia de casal?
J: Não se cura o casal. O tratamento é a tentativa de curar a disfunção de um dos dois, ou de ambos individualmente, no caso perguntado, a mulher.
- O gozo deve ser o mais valorizado na relação sexual, todo sexo tem que terminar em orgasmo?
J: Nem toda relação sexual termina em gozo. Tanto o homem pode ejacular sem ter gozo, como a mulher pode não tê-lo também. Mas, ambos, se sentem incompletos. É como quem faz uma dieta: fica incompleto, não se satisfaz.
- Quem está lendo esta entrevista e não tem orgasmos, qual o primeiro passo para mudar?
J: Procurar uma ajuda competente. Pode-se ter uma grande excitação, mas não a descarga orgástica. Uma boa autoestima é fator importante para sua permissão de ter orgasmo com o parceiro. Ninguém se dá, quando se acha um lixo.















