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01 outubro 2009

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Entrevista - Violência doméstica (Maria Cláudia Goulart)

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Pancada de amor dói ainda mais

Filme Te doy mis ojosRecorte do cartaz de Te doy mis ojos (2003)

Neste mês a Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo divulgou resultados de uma pesquisa sobre violência doméstica que traz dados assustadores: 75% das vítimas de violência doméstica são mulheres, que em 68% do caso são agredidas pelo próprio parceiro íntimo. Os dados do principal estado do país refletem uma triste realidade enfrentada por mulheres em todo o Brasil. De acordo com a psicóloga Maria Cláudia Goulart, especialista em violência doméstica, a dependência emocional e financeira aliadas à esperança de que o companheiro irá mudar estão entre as principais causas para mulheres aceitarem serem vítimas de violência.

Nessa entrevista, a psicóloga, que atua há oito nos na área social, aponta comportamentos que podem ajudar a identificar um futuro agressor e alerta "muitas vezes, as sequelas psicológicas da violência são ainda mais graves que seus efeitos físicos".


Quais fatores podem levar à violência doméstica e o que a caracteriza?
M: Violência doméstica é caracterizada por toda ação ou omissão que prejudique o bem-estar, a integridade física, psicológica ou a liberdade e o direito ao pleno desenvolvimento de um membro da família. Usualmente cometida dentro do ambiente familiar, por qualquer integrante da família que esteja em relação de poder com a pessoa agredida. Inclui também as pessoas que estão exercendo a função de pai ou mãe, mesmo sem laços de sangue.


Não é possível delimitar quais fatores podem levar à violência doméstica, é um problema que acomete ambos os sexos, atingem crianças, adolescentes, adultos e idosos. Não costuma obedecer a nível social, econômico, religioso ou cultural específico.


A casa, o lar, é geralmente o refúgio das pessoas para os vastos problemas que elas enfrentam em outros ambientes. Quais as consequências psicológicas para quem é vítima de violência dentro da própria casa?
M: Muitas vezes, as sequelas psicológicas da violência são ainda mais graves que seus efeitos físicos. A experiência da violência, destrói a auto estima da mulher, expondo-a a um risco mais elevado de sofrer de distúrbios psíquicos, como depressão, fobia, estresse pós-traumático, tendência ao suicídio e consumo abusivo de álcool e drogas.

Os papéis rígidos impostos para os sexos favorecem muito a existência e aumento da violência doméstica"


Somente as mulheres são vítimas de violência doméstica ou há casos de homens que também são vítimas?
M: A violência contra as mulheres é diferente da violência interpessoal em geral. Os homens têm maior probabilidade de serem vítimas de pessoas estranhas ou pouco conhecidas, enquanto que as mulheres têm maior probabilidade de serem vítimas de membros de suas próprias famílias ou de seus parceiros íntimos. As pesquisas indicam que o número de mulheres violentadas por homens é muito superior ao número de homens que são violentados por mulheres. Os homens também são vítimas mas tendem a esconder por vergonha, humilhação.



Há como identificar um companheiro que possa tornar-se violento?
M: É difícil prever qual companheiro poderá tornar-se violento, porém algumas características prevalecem em agressores. Fatores pessoais do agressor: ter presenciado violência conjugal quando criança; ter sofrido abuso quando criança; pai ausente; consumo de bebidas alcoólicas e/ou drogas. Fatores de risco da relação: conflito conjugal; controle masculino da riqueza e da tomada de decisões na família. Fatores da comunidade: pobreza, desemprego; associação a amigos delinquentes; isolamento das mulheres e famílias. Fatores da sociedade: normas socioculturais que concedem aos homens o controle sobre o comportamento feminino; aceitação da violência como forma de resolução de conflitos; conceito de masculinidade ligado à dominação, honra ou agressão; papéis rígidos para ambos os sexos.

Filme Kil Bill II
Recorte do cartaz de Kill Bill Volume II (2004)


Por qual motivo alguém aceita ser vítima de violência?
M: As vítimas de violência doméstica alegam medo de represália, perda do suporte financeiro, preocupação com os filhos, dependência emocional e financeira, perda de suporte da família e dos amigos, esperança de que "ele vai mudar um dia" como motivos para suportar a violência sofrida. Outros fatores contribuem para manutenção na relação conflitiva, são eles: repetição de modelo familiar/parental violento; vivências infantis de maus-tratos, negligência, rejeição, abandono e abuso sexual; casamento como forma de fugir da situação familiar de origem, sendo o parceiro e relacionamento idealizados; sintomas depressivos; sentimento de responsabilidade pelo comportamento agressivo do companheiro; ausência de uma rede de apoio eficaz no que se refere à moradia, escola, creche, saúde, atendimento policial e da justiça.



Como se libertar dessa situação?
M: Para crianças, adolescentes e idosos que são mais vulneráveis, devem buscar ajuda com alguém de sua confiança que não tenha laços de afetividade com o agressor. Já as mulheres ou homem vítimas de violência doméstica devem primeiramente reconhecer-se como vítimas e não como agentes causadoras da violência. Em segundo lugar, procurar ajuda, orientação em centro de atendimentos à vitimas de violência, delegacias especializadas no atendimento à mulher, e programas sociais de apoio às vitimas de violência doméstica, que irão orienta-las e dar suporte para os encaminhamentos necessários.

Culturalmente o ciúme é visto como prova de amor. Muitos, por ciúme, justificam a agressão como uma prova de amor"
Apesar das dificuldades, muitas mulheres acabam abandonando os parceiros violentos. As mulheres mais jovens são mais propensas a abandonar estes relacionamentos mais cedo. Situações como aumento do nível da agressão, violência afetando os filhos e apoio sociofamiliar são determinantes na decisão de sair do relacionamento. A mulher entra em um processo de quebra de sua negação, racionalização, culpa e submissão, passando, então, a se identificar com outras pessoas na mesma situação. Nesse período, é comum o abandono e retorno ao relacionamento várias vezes, antes de deixá-lo definitivamente. Infelizmente, mesmo após o término da relação, a violência pode continuar e até aumentar. O maior risco de ser assassinada pelo marido ocorre após a separação.


Os amigos e familiares tem algum papel nesse caso? Como ajudar alguém que sofre com esse problema?
M: No caso de crianças, adolescentes e idosos, amigos e familiares podem fazer denúncias anônimas ao Conselho Tutelar, Conselho do Idoso ou à Polícia que irão encaminhar as providências caso a caso.


Em relação as mulheres ou homem vítimas de violência doméstica, amigos e familiares podem ajudar a vítima a reconhecer-se como vítima, auxiliar na busca por orientação e principalmente dar suporte e apoio.


Para encerrar, há um infeliz ditado que diz que "tapa de amor não dói". Por que muitas pessoas acham que agressões podem ser provas de amor?
M: Em muitos casos, o agressor justifica a violência como um descontrole em razão de ciúmes, insegurança. Culturalmente, o ciúme ainda é considerado uma forma de demonstração de amor, afeto, desta forma, justificando que a agressão é uma prova de amor. Nas relações em que um parceiro é submisso ao outro, aquele que exerce o "poder" utiliza de violência para conseguir o que deseja, e numa forma de reprodução da relação familiar, exerce seu poder de forma agressiva, como o "pai que bate porque ama e quer o melhor para seu filho".

8 dos desabafos - DESABAFE!:

  1. Ru quem ama cuida!

    bjos fofos meu lindo

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  2. Lú Silva,
    Exatamente, cuida e não bate! :D Beijos!

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  3. Ando meia sumida daqui, mais vim tirar o atrazo rsrsrsr.... :P
    Eu acho que a mulher que se presta a esse papel de apanhar e nao fazer nada,ou seja, continuar com um cara assim, nao se da valor. Elas dizem: aaah, mas eu gosto dele... Que tipo de amor é esse? que só te faz mal, que te espanca e te faz sofrer ? Acredito eu, que o amor é o belo da vida, e se não deu certo com esse, tente com outro, quem sabe não dê certo agora? O que não podemos, é ficar sofrendo e se rebaixando por esse tipo de homen, Nós mulheres, temos que nos valorizar!!!

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    Respostas
    1. Se fosse fácil assim... O agressor não é um homem que da a companheira liberdade de separação! Quem vê de fora julga com muita facilidade. Se a mulher separa, denúncia, vai embora, aí sim é assassinada, e também coloca em risco os filhos e a família. Então pra essas mulheres, simplesmente não há opção.

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    2. Se fosse fácil assim... O agressor não é um homem que da a companheira liberdade de separação! Quem vê de fora julga com muita facilidade. Se a mulher separa, denúncia, vai embora, aí sim é assassinada, e também coloca em risco os filhos e a família. Então pra essas mulheres, simplesmente não há opção.

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  4. Bianca Neuza,
    Com certeza, mocinha! É preciso ter coragem e colocar um ponto final no que nem deveria ter começado. Ninguém pode aceitar e/ou permitir que alguém viva assim!

    Não suma mais! :D Beijos!

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  5. A aceitação da violência muitas vezes é pelo fato de simplesmente depender da pessoa agressora. A vítima nem tem escolha e se silencia. Mas como a leitora aí em cima escreveu: quem ama, cuida. Assino em baixo!

    __________________________________

    Os entrevistados do site são relacionados a temas especiais do nosso cotidiano? Tem um poeta da minha cidade que gostaria que entrevistasse. Ele tem um grande reconhecimento aqui na Bahia e no Brasil, é o João de Moraes Filho. Já publicou dois livros, ganhou o Prêmio Braskem de cultura e arte e "pertence a uma espécie de poetas que une o sentimento lírico da vida a uma retórica limpa, sua, muito particular."
    Não sei como é o critério na escolha das entrevistas, mas fica o site do seu livro recém-publicado para análise. (http://emnomedosraios.blogspot.com/)
    Qualquer coisa, estou a disposição?

    Beijos

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  6. Lorena,
    A dependência é difícil mesmo de ser vencida, é uma realidade triste a da violência doméstica!

    --

    Olha, as entrevistas são sobre temas de relacionamento, com psicólogos e psicanalistas, mas vou estudar sua sugestão! :D Beijos!

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"deixa, deixa, deixa eu dizer o que penso dessa vida, preciso demais desabafar"
(Ronaldo Monteiro/ Ivan Lins)

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