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Entrevista - Solidão no fim de ano

O medo de viver, amar e perder

Cena de O amor não tira férias (2006)

"Algumas pessoas deixam de viver por medo de morrer, deixam de amar por medo de perder". O alerta é feito pelo tanatólogo, psicólogo e professsor universitário Aroldo Escudeiro, ao definir a relação de grande parte das pessoas com a própria existência. Coordenador da Rede Nacional de Tanatologia (RNT) - ciência que avalia os processos emocionais e psicológicos ocasionados pelas perdas - o professor fala, nesta entrevista, sobre um estado comum nas festividades de fim de ano: a solidão. Para o psicólogo, esse sentimento recorrente nessa época ocorre pois "os ciclos, as mudanças, sempre nos deixam mais reflexivos e introspectivos".

- Professor Aroldo, o que estuda a tanatologia?
A: A tanatologia é uma ciência que estuda os processos emocionais e psicológicos decorrentes das perdas, sejam elas concretas ou simbólicas. A morte de um ente querido, geralmente, é a perda mais difícil de enfrentar.

- Como a tanatologia pode ajudar o ser a lidar com as perdas e sentimentos?
A: Viver é a melhor forma de enfrentar a realidade da qual não podemos fugir, a morte. As pessoas que mais temem as perdas e a morte são aquelas que menos vivem. Algumas pessoas deixam de viver por medo de morrer, deixam de amar por medo de perder. A Tanatologia nos lembra que somos finitos e que o nosso tempo voa, que a vida passa. Nos lembra também que estamos vivos e podemos usufruir da vida de muitas maneiras e em diversos campos. Nos diz para o que serve a morte: para possibilitar a vida, pois se não morressemos os nosso filhos e netos não poderiam ter os filhos e netos deles, não poderiam experimentar essa coisa maravilhosa que chamamos de vida.

- Por que no fim de ano, com a comemoração do natal e ano-novo, é tão comum algumas pessoas se sentirem mais sós?
A: Os ciclos, as mudanças, sempre nos deixam reflexivos e introspectivos.
"Ter energia suficiente para mover-se para frente e transformar a dor em lembrança, resignificá-la"

- Famílias ou amigos que perderam alguém querido, às vezes, deixam de celebrar as comemorações de fim de ano por tristeza. Seria mesmo o melhor caminho?

A: Se a morte aconteceu muito próximo a essas datas festivas que deixam as pessoas mais sensibilizadas é comum a idéia de que se "está desrespeitando a memória do morto" ou então a pessoa enlutada pode até sentir culpa em algum aspecto da relação com o morto, ou não se sente bem em eventos sociais, são muitos os motivos.

Geralmente no primeiro ano de luto essas datas mobilizam mais e são mais difíceis de enfrentar. Devemos respeitar o movimento de cada grupo. Acho, pessoalmente, que devemos sempre celebrar a vida a todo momento, mas entendo que quando perdemos alguém muito especial é muito difícil raciocinar dessa maneira, a emoção toma conta da situação. Achamos que não iremos sobreviver. O caminho tem a ver com viver o luto.

- E até quando viver o luto? Há um limite?
A: O luto é um processo, portanto devemos esperar a conclusão do mesmo para que a Gestalt [o processo psicológico como um todo] feche. O tempo é o tempo de cada um e isso implica muitas variáveis que irão direcionar o processo. Se falarmos de um luto "normal" podemos falar em um ano, dois, três, quatro, podemos dizer que o limite é o não interromper com as atividades principais da vida cotidiana, é ter energia suficiente para mover-se para frente e transformar a dor em lembrança, resignificá-la.

Cena de O amor não tira férias (2006)

- No ano-novo, muitos solteiros agem como se fosse "o fim do mundo" passar o reveillon sem namorado. Há algum caminho para não se sentir perdido ou "encalhado" como dizem?
A: Acho que gostar de si mesmo é fundamental para lidar com a solidão. Trabalhar a auto-estima e viver o que se apresenta no momento, e, sabemos, tudo na vida tem os dois lados. Ficar só pode significar também a possibilidade de encontrar algo ou "alguém" que lhe complete a falta.

- Por que o ser humano parece sentir-se tão faltoso, professor: seja de alguém querido que morreu, seja de um amor ou de algo material?
A:
Somos desamparados. Nascemos e morremos sós, mesmo os gêmeos têm dois momentos de nascer e dois momentos de morrer. Ninguém nasce por nós e também não pode morrer no nosso lugar. Precisamos nos apegar a algo ou alguém para nos sentirmos seguros, para nos proteger do único evento que não podemos controlar: a finitude, a impermanência, a efemeridade da vida, o tempo, o nada. A angústia existencial e a angústia da morte geram a crise do não-saber o que virá depois e isso nos atormenta. Queremos descobrir um sentido para a vida, mas temos pouco tempo, em média pouco mais de 70 anos de vida. E nos perguntamos: para onde vamos depois?

"E, não esqueça, você vai sobreviver"

- Há quem diga que devemos sempre lidar com as pessoas sabendo que podemos perdê-las, ou que "só quando se perde que se dá valor". Considerar a possibilidade da perda traz algum benefício às relações?
A:
O desapego às coisas e às pessoas é um exercício que devemos fazer continuamente, pois não temos nada além da própria vida, tudo nos é emprestado: a nossa casa, o nosso trabalho, os nossos familiares, os nossos objetos materias, o nosso planeta. Quando nos apegamos em demasia a uma outra pessoa perdemos a nossa própria base, a base em nós mesmos. Ficamos dependentes, temerosos em perdê-la. Podemos amar e sermos desapegados. Desamor não tem nada a ver com desapego. Isso com certeza traz benefícios não apenas para a pessoa mas também para a relação.

- Qual mensagem o senhor deixa para quem está se sentindo só ou lidando com a perda de alguém que amava neste fim de ano?
A: Viver o luto é fundamental para que a pessoa se restabeleça e não apresente sintomas posteriormente. Atendo muitos casos de depressão provocada por um luto mal elaborado. Trabalhar a dor da perda é fundamental para o desenrolar do processo de forma saudável. Expressar o pesar ajuda a encarar a realidade da perda além de liberar material afetivo intenso, isso é bom para o processo do luto. E, não esqueça, você vai sobreviver.

Desabafos 11 dos desabafos - DESABAFE!

Pierce desabafou...

Ahh quero ser o primeiro a comentar...

eu ouvi a trilha sonora de o amor nao tira ferias hoje a tarde inteira
KKK

ja ja comento mais.

Pierce desabafou...

Eu nao sabia o que era tanatologia...rs


Adorei a entrevista...

beijo ru.

RU Ruleandson do Carmo (RU) desabafou...

Pierce,
Morro de rir de você tentando ser o primeiro a comentar no blog! Pois é, a tanatologia é bem interessante, né? Vamos tentar com a entrevista aprender a celebrar mais a vida e sofrer menos (principalmente por quem não merece). Beijos!

Angelica desabafou...

Ruu...
Que entrevista perfeiiiiiiiiiiiiiiiitaaa!!!!
Simplesmente ADOREIII!
Como faço psicologia, esse assunto tem tudo a ver comigooo!!!=D
voce esta de parabéns pela entrevista viuu!!!
nunca canso de elogiar voce!=]
A tanatologia é muito interessante..eu sempre me interesso por assuntos relacionados a perda, pois nunca estamos acostumados a perder né?! e a lidar com esses sentimentos que deixam muitas vezes as pessoas" pra baixo" principalmente nessas datas...
O négocio é nós tentarmos levantar seeempre nossa auto-estima!=]]

Mais uma vez, Parabénnnnssss!!=]

RU Ruleandson do Carmo (RU) desabafou...

Angelica,
Lidar com as perdas, de todas as espécies, é um grande desafio, né? Não sabia que fazia psicologia, que legal! O segredo é esse mesmo levantar a auto-estima. Muito obrigado pelo seu carinho com o blog, viu? Beijos e obrigado!

Saulo Oliveira desabafou...

Comecei a ler recentemente esse blog, e uau! perfeito.

Você escreve muito bem, é de uma sensibilidade incrível.

RU Ruleandson do Carmo (RU) desabafou...

Saulo Oliveira,
Muito obrigado! Espero que volte sempre ao blog! Abração!

Anônimo desabafou...

amei
beijo iza

RU Ruleandson do Carmo (RU) desabafou...

iza,
Obrigado! Beijos!

adriane desabafou...

vc vai sentir ta perto, mas ñ se preocupe a dor passa,porisso deixe pelo menos um neto pra familia brigar por ele depois que vc se for.

RU Ruleandson do Carmo (RU) desabafou...

Adriane,
:D

Obrigado, pela visita. Aproveite e DESABAFE você também!

"deixa, deixa, deixa eu dizer o que penso dessa vida, preciso demais desabafar"
(Ronaldo Monteiro/ Ivan Lins)

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