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24 dezembro 2008

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Entrevista - Solidão no fim de ano (Aroldo Escudeiro)

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O medo de viver, amar e perder

Cena de O amor não tira férias (2006)

"Algumas pessoas deixam de viver por medo de morrer, deixam de amar por medo de perder". O alerta é feito pelo tanatólogo, psicólogo e professsor universitário Aroldo Escudeiro, ao definir a relação de grande parte das pessoas com a própria existência. Coordenador da Rede Nacional de Tanatologia (RNT) - ciência que avalia os processos emocionais e psicológicos ocasionados pelas perdas - o professor fala, nesta entrevista, sobre um estado comum nas festividades de fim de ano: a solidão. Para o psicólogo, esse sentimento recorrente nessa época ocorre pois "os ciclos, as mudanças, sempre nos deixam mais reflexivos e introspectivos".

- Professor Aroldo, o que estuda a tanatologia?
A: A tanatologia é uma ciência que estuda os processos emocionais e psicológicos decorrentes das perdas, sejam elas concretas ou simbólicas. A morte de um ente querido, geralmente, é a perda mais difícil de enfrentar.

- Como a tanatologia pode ajudar o ser a lidar com as perdas e sentimentos?
A: Viver é a melhor forma de enfrentar a realidade da qual não podemos fugir, a morte. As pessoas que mais temem as perdas e a morte são aquelas que menos vivem. Algumas pessoas deixam de viver por medo de morrer, deixam de amar por medo de perder. A Tanatologia nos lembra que somos finitos e que o nosso tempo voa, que a vida passa. Nos lembra também que estamos vivos e podemos usufruir da vida de muitas maneiras e em diversos campos. Nos diz para o que serve a morte: para possibilitar a vida, pois se não morressemos os nosso filhos e netos não poderiam ter os filhos e netos deles, não poderiam experimentar essa coisa maravilhosa que chamamos de vida.


- Por que no fim de ano, com a comemoração do natal e ano-novo, é tão comum algumas pessoas se sentirem mais sós?
A: Os ciclos, as mudanças, sempre nos deixam reflexivos e introspectivos.

Ter energia suficiente para mover-se para frente e transformar a dor em lembrança, ressignificá-la"



- Famílias ou amigos que perderam alguém querido, às vezes, deixam de celebrar as comemorações de fim de ano por tristeza. Seria mesmo o melhor caminho?

A: Se a morte aconteceu muito próximo a essas datas festivas que deixam as pessoas mais sensibilizadas é comum a idéia de que se "está desrespeitando a memória do morto" ou então a pessoa enlutada pode até sentir culpa em algum aspecto da relação com o morto, ou não se sente bem em eventos sociais, são muitos os motivos.



Geralmente no primeiro ano de luto essas datas mobilizam mais e são mais difíceis de enfrentar. Devemos respeitar o movimento de cada grupo. Acho, pessoalmente, que devemos sempre celebrar a vida a todo momento, mas entendo que quando perdemos alguém muito especial é muito difícil raciocinar dessa maneira, a emoção toma conta da situação. Achamos que não iremos sobreviver. O caminho tem a ver com viver o luto.

- E até quando viver o luto? Há um limite?
A: O luto é um processo, portanto devemos esperar a conclusão do mesmo para que a Gestalt [o processo psicológico como um todo] feche. O tempo é o tempo de cada um e isso implica muitas variáveis que irão direcionar o processo. Se falarmos de um luto "normal" podemos falar em um ano, dois, três, quatro, podemos dizer que o limite é o não interromper com as atividades principais da vida cotidiana, é ter energia suficiente para mover-se para frente e transformar a dor em lembrança, resisgnificá-la.


Cena de "O amor não tira férias" (2006)

- No ano-novo, muitos solteiros agem como se fosse "o fim do mundo" passar o reveillon sem namorado. Há algum caminho para não se sentir perdido ou "encalhado" como dizem?A: Acho que gostar de si mesmo é fundamental para lidar com a solidão. Trabalhar a auto-estima e viver o que se apresenta no momento, e, sabemos, tudo na vida tem os dois lados. Ficar só pode significar também a possibilidade de encontrar algo ou "alguém" que lhe complete a falta.



- Por que o ser humano parece sentir-se tão faltoso, professor: seja de alguém querido que morreu, seja de um amor ou de algo material?
A: Somos desamparados. Nascemos e morremos sós, mesmo os gêmeos têm dois momentos de nascer e dois momentos de morrer. Ninguém nasce por nós e também não pode morrer no nosso lugar. Precisamos nos apegar a algo ou alguém para nos sentirmos seguros, para nos proteger do único evento que não podemos controlar: a finitude, a impermanência, a efemeridade da vida, o tempo, o nada. A angústia existencial e a angústia da morte geram a crise do não-saber o que virá depois e isso nos atormenta. Queremos descobrir um sentido para a vida, mas temos pouco tempo, em média pouco mais de 70 anos de vida. E nos perguntamos: para onde vamos depois?
Expressar o pesar ajuda a encarar a realidade. E, não esqueça, você vai sobreviver"


- Há quem diga que devemos sempre lidar com as pessoas sabendo que podemos perdê-las, ou que "só quando se perde que se dá valor". Considerar a possibilidade da perda traz algum benefício às relações?
A: O desapego às coisas e às pessoas é um exercício que devemos fazer continuamente, pois não temos nada além da própria vida, tudo nos é emprestado: a nossa casa, o nosso trabalho, os nossos familiares, os nossos objetos materias, o nosso planeta. Quando nos apegamos em demasia a uma outra pessoa perdemos a nossa própria base, a base em nós mesmos. Ficamos dependentes, temerosos em perdê-la. Podemos amar e sermos desapegados. Desamor não tem nada a ver com desapego. Isso com certeza traz benefícios não apenas para a pessoa mas também para a relação.


- Qual mensagem o senhor deixa para quem está se sentindo só ou lidando com a perda de alguém que amava neste fim de ano? 
A: Viver o luto é fundamental para que a pessoa se restabeleça e não apresente sintomas posteriormente. Atendo muitos casos de depressão provocada por um luto mal elaborado. Trabalhar a dor da perda é fundamental para o desenrolar do processo de forma saudável. Expressar o pesar ajuda a encarar a realidade da perda além de liberar material afetivo intenso, isso é bom para o processo do luto. E, não esqueça, você vai sobreviver.

13 dos desabafos - DESABAFE!:

  1. Ahh quero ser o primeiro a comentar...

    eu ouvi a trilha sonora de o amor nao tira ferias hoje a tarde inteira
    KKK

    ja ja comento mais.

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  2. Eu nao sabia o que era tanatologia...rs


    Adorei a entrevista...

    beijo ru.

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  3. Pierce,
    Morro de rir de você tentando ser o primeiro a comentar no blog! Pois é, a tanatologia é bem interessante, né? Vamos tentar com a entrevista aprender a celebrar mais a vida e sofrer menos (principalmente por quem não merece). Beijos!

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  4. Ruu...
    Que entrevista perfeiiiiiiiiiiiiiiiitaaa!!!!
    Simplesmente ADOREIII!
    Como faço psicologia, esse assunto tem tudo a ver comigooo!!!=D
    voce esta de parabéns pela entrevista viuu!!!
    nunca canso de elogiar voce!=]
    A tanatologia é muito interessante..eu sempre me interesso por assuntos relacionados a perda, pois nunca estamos acostumados a perder né?! e a lidar com esses sentimentos que deixam muitas vezes as pessoas" pra baixo" principalmente nessas datas...
    O négocio é nós tentarmos levantar seeempre nossa auto-estima!=]]

    Mais uma vez, Parabénnnnssss!!=]

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  5. Angelica,
    Lidar com as perdas, de todas as espécies, é um grande desafio, né? Não sabia que fazia psicologia, que legal! O segredo é esse mesmo levantar a auto-estima. Muito obrigado pelo seu carinho com o blog, viu? Beijos e obrigado!

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  6. Comecei a ler recentemente esse blog, e uau! perfeito.

    Você escreve muito bem, é de uma sensibilidade incrível.

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  7. Saulo Oliveira,
    Muito obrigado! Espero que volte sempre ao blog! Abração!

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  8. vc vai sentir ta perto, mas ñ se preocupe a dor passa,porisso deixe pelo menos um neto pra familia brigar por ele depois que vc se for.

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  9. Ru, adorei esse post, é importante passar essa informação de que o luto, a solidão faz parte de nós mortais, mas não se deve ser estendido a vida inteira, infelizmente, vejo que algumas pessoas são assim, com exceção de parentes que são únicos e devemos guarda-los em nosso coração, amores vem e vão e temos que viver, tem pessoas q estende luto e solidão por alguém ou algo que não vale a pena.

    como diz a música de Paula Fernandes...

    ¨Agora sou a prova viva
    De que nada nessa vida
    É pra sempre até que prove o contrário¨

    bjo grande e Boas festas!

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    Respostas
    1. Deisiane Silva,
      Com certeza é importante entendermos que o luto é parte da nossa vida e a tristeza também. Eles só não podem durar eternamente! ;) Beijos e boas festas para você também!

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"deixa, deixa, deixa eu dizer o que penso dessa vida, preciso demais desabafar"
(Ronaldo Monteiro/ Ivan Lins)

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