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Minha Vó


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Onde quer que esteja

Recorte do cartaz de Casa de areia (2005): casa vazia
Almerinda Miguel de Souza tinha 75 anos, 13 filhos, 3 ex-maridos, 31 netos, 37 bisnetos e 1 tataraneto. Os números refletem a história de quem não sabia lidar com eles. Dona Almerinda, ou Vó Merinda, era analfabeta, mas sabia falar coisas que tocavam ao coração. Mineira, nasceu na cidade de São Félix, morou grande parte da vida em Rochedo e outra parte em BH. Alegre e determinada, ela cozinhou por anos nas mesmas panelas, que quando furavam, de tanto serem gastas, ela colava com chicletes, em uma curiosa invenção que eu nunca entendi.

Também nunca entendi por que ela andava com aquele rádio de pilhas a tira-colo, sempre atenta aos resultados do jogo do bicho, um de seus poucos vícios. Agora, virtudes ela tinha aos montes: fazia o melhor café e o melhor feijão do mundo, me escutava quando ninguém queria me ouvir, e entendia o que ninguém entendia em mim. Defendia aos netos como uma leoa a defender as crias e amava aos filhos como quem ama o que se pode perder.

Casou pela primeira vez aos 13 anos e foi tirada da casa do marido, após apanhar muito dele. Casou-se novamente, mas perdeu o marido em um acidente, na gruta em que ele trabalhava: ele carregou uma mala com muitas micas e arrebentou seu organismo por dentro, devido ao peso. Micas são pedras que fazem talco. Talco de cheiro marcante, mas suave, assim como era a Vó Merinda.

Depois que o segundo marido morreu ela ficou na miséria. Seu irmão roubou a herança dela, após a morte da Mãe Véia, minha bisavó. Mãe véia cometeu um quase suicídio: ao perder o marido, ela preferiu tomar veneno de rato a viver sem seu amor. Ela sobreviveu ao veneno, mas em pouco tempo o seu corpo não. O irmão de minha Vó, que a roubou, morreu achatado por uma pedra em uma mina. A outra herança que ela receberia do marido morto, foi roubada pela família dele.

Vó Merinda então passou fome algum tempo, até que um dia um homem passou na porta de sua casa e pediu água. Ele entrou e só saiu 17 anos depois, quando sentiu sede novamente e a trocou por outra mulher. Neste meio tempo, na fazenda onde voltou a trabalhar, uma vaca a viu com meu tio em seu colo e pensou ser o bezerro dela. Minha vó foi atacada pela vaca e ganhou um coágulo no cérebro, se fosse operada morreria, se o coágulo estourasse, também. Mas, ela não se arrependia de nada, ela "viveu", como sempre me dizia.

Um dia, minha vó falou: "meu maior sonho é ter meu pedacinho de terra, para viver. Mas a única terra que eu terei será a minha cova". Há 10 anos, perdi a Vó Merinda. O coágulo que a vaca criou estourou e ela se foi. Ela morreu e nunca teve sua casa própria. Ela está enterrada no Cemitério Bosque da Esperança, em BH.

A Vó foi e nunca mais voltou. Algumas vezes eu esqueço que ela foi e acordo para pedir o café dela. Ela não está lá mais. Mas o café está. Se eu pudesse eu trocava o café por ela. É, Vó, pena que os chicletes tampam os buracos das suas panelas, mas não tampam os buracos que a vida deixa em nossos corações. Um dia a gente se encontra e pode me esperar, com um copo de café e um pedaço de queijo na mão, e se prepara porque a gente vai dançar forró até doer o pé.

"O que nunca pensei é que pudesse ser assim tão vazia uma casa sem um anjo"
(Caio Fernando Abreu - Réquiem para um Fugitivo)


Sobre o autor
Ruleandson%20do%20Carmo Ruleandson do Carmo , autor de todas as crônicas deste blog , é jornalista, doutorando em Ciência da Informação (UFMG) e ama falar de amor. Saiba mais
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Desabafos - Comente
24 Desabafos - Comente

24 comentários :

  1. Só você para me fazer chorar meia noite e vinte em pleno serviço.


    Eu tenho uma relação de admiração pelas minhas avós, todas. Tanto as de sangue quanto as postiças. Foram peças importantíssimas na minha formação e, também, me mimaram muito!

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  2. Oi, RU! fiquei com uma certa inveja de vc. nunca tive vô ou vó presentes. tive vô e vó por parte de mãe. a mãe de minha mãe era linda, mas morreu quando eu era muito novo. só me lembro de chegar à casa dela, com uns 5 anos, e ela dizer "oi, meu netinho!!", e eu passar por debaixo das pernas dela. Mas a Dona Merinda daria uma ótima novela ou um lindo filme hein! Haja história pra contar!
    abração! parabéns pelos ótimos textos!

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  3. Ru, eu sou carente de vó. Não conheci as minhas de sangue. Pego as dos amigos emprestadas. A sua, foi uma guerreira. Me emocionei com a história dela. Até eu senti saudades!

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  4. Também não tive avó, mas lendo vc, parecia que a avó era minha também.

    Texto de uma delicadeza impressionante.

    E aquela vaca, aquela vaca... era uma "vaca", hein?

    Um abraço,

    Elga

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  5. Ru, a saudade da sua avó me deu saudade da minha...

    Parabéns pelo ótimo texto (como sempre).

    Prazer em relê-lo.

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  6. Emocionante!!!! Eu só conheci meu avô, por parte de mãe, mas não sei muito dele, apesar de ter convivido com ele um certo tempo. Eu gostaria de ter conhecido as minhas avós e a sua também!!! Adorei demais seu texto! beijo!

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  7. Ru, deu vontade de chorar...
    Me deu saudade da minha avó e daquele cheirinho que ela tinha...
    Engraçado como a gente nunca mais esquece, né?
    Tô com um bolo na garganta, aqui.

    beijo!

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  8. É cara...é complicado.
    A unica coisa certa na vida: a morte.Saudade fica, mas sabemos de alguma forma que nossos entes queridos estão vivos em nossos corações. Já perdi duas avós, dois avôs, e meu pai.Mas a memória deles sempre está andando lado a lado comigo. Parabéns pelo texto.
    Abração!

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  9. Oi, eu adoro o seu blog...vc escreve mto bem(ó, garanto que não sou a primeira que falo isso!!!), vi seu post lá na Comu Oficial(Sandy e Junior) e decidi conferir os outros post e adorei. Já favoritei aqui e sempre que der, vou dar um pulinho pra ler seus textos. É fascinante a forma que você escreve...parabéns!!!
    Tenho um blog tbm, não escrevo tão bem quanto você, mais adoro escrever, acho que faz bem pra alma.
    www.dealgumjeito.blogspot.com
    Ah! adorei o nome do blog, super criativo.
    bjs
    Rona.

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  10. Li com lágrimas nos olhos.
    Você é um talento nato.
    Tenho orgulho de ser sua amiga.
    Que Deus abençõe o seu dom com as palavras.
    Beijinhos.

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  11. [...]
    também quero minhas avós =(

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  12. minha vó tb tem umas panelas antigonas (e tb é mineira) e nunca troca... mas ela sempre vai remendando os furos com Durepox.

    E afazer o que?
    a comida que ela faz é a mlehor que eu já comi em toda minha vida...
    especialmente quando faz no fogão à lenha.

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  13. Oi Ru!

    Lindo texto!
    Tocante, sensível e forte.
    Parabéns!
    Beijos para você e para vó Merinda, onde quer que ela esteja!

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  14. Estou sem palavras, já não tenho avós, todos se foram, cada um com uma história diferente, também tenho saudades, minha avó paterna foi casada com apenas um homem, foram casados por 50 anos, ele morreu por conta de doenças cardiacas, morreu dormindo, monha avó faleceu um ano e um dia depois, morreu de saudade, e nos deixou com uma saudade imensa, não sei se maior do que a dela, a dela causou a morte, nós, estamos vivos até hoje.

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  15. achei seu blog por acaso. também achei o texto da sua vó por acaso. mas parei e li. textos sobre avós são meu ponto fraco. e você está de parabéns, desconhecido.

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  16. A todos,
    Muito obrigado, por terem lido, comentado e gostado desse texto que fala de alguém tão especial em minha vida. Às vezes, nem consigo ler de novo, tamanha saudade. Obrigado!

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  17. que bom que descobri o teu blog, vc é perfeito e suas colocações são fantásticas!
    Não mais consigo viver sem elas!!!!!!!!!
    parabéns pelo blog

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  18. Anônimo,
    Coisa boa de se ler, perfeito é poder ler seu comentário! Obrigado pelo incentivo e que eu possa ser merecedor das suas palavras! Obrigado!

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  19. Já li umas tres vezes o seu texto e todas as vezes me emocionei, pois me lembra muito o meu avô. Convivi apenas 5 anos da minha vida com ele, mais foram os melhores 5 anos da minha vida, pois descobrir que amor verdadeiro existe.
    E também essa saudade que sentimos nós doi muito em saber que nunca mais veremos a pessoa que nós fez feliz, que cuidou de nós... Enfim ameii o seu texto.

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  20. Jaque,
    Muito obrigado, mocinha! Também sinto muita saudade... muita! :(( Beijos!

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  21. Só quero te dizer que você conseguiu me fazer chorar Ru. É tão bom lembrar de alguém com carinho, quem sabe um dia também escreva sobre o meu avô que faleceu a três anos, mas que eu ainda sinto comigo todos os dias.

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  22. eu soqueria minha vozinha de volta

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  23. Anônimo,
    Tenha-a de volta na sua lembrança! ;)

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  24. Este comentário foi removido pelo autor.

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